quarta-feira, 18 de novembro de 2015

COBERTURA XI PANORAMA INTERNACIONAL COISA DE CINEMA

 A segunda sessão do dia de sábado (31) do XI Panorama Internacional Coisa de Cinema teve o documentário como foco. Três produtos bastante diferentes entre si em temáticas e formas de abordagem, os filmes da sessão tinham por grande objetivo homenagear o cineasta Mário Peixoto e a cultura baiana e alertar para os problemas da seca no Nordeste do Brasil.




Uma boca cospe. Em escombros do que antes fora um prédio, uma mulher negra movimenta-se em uma performance hipnotizante antes de atacar a câmera fixa. Logo nos primeiros planos, Ifá, de Leonardo França, conquista o espectador pela fotografia e as cores. Os planos são intimistas, fazem o espectador refletir e acompanhar os movimentos da boca e de todo o corpo da mulher de forma poética. A saturação do filme salta aos olhos e chama a atenção para a imagem mostrada. Entretanto, durante os vinte minutos do filme, ele perde força e parece não saber que direção tomar. A mulher e sua poesia se misturam a uma conversa com um pai de santo e a uma contação muito didática de uma história de Orixás. Enquanto o homem fala, as imagens retratam exatamente o que o homem diz, não há ousadia no que se mostra, não há alegoria metafórica alguma e as planos acabam sendo forçados demais.


Mario Peixoto foi roteirista e diretor de um dos maiores e mais enigmáticos filmes da história do cinema brasileiro: Limite. Seu único longa-metragem. O curta Mar de Fogo homenageia o mestre e sua obra em nove minutos. A proposta de homenagear Peixoto e seu filme é, sem dúvidas, louvável, entretanto, a impressão é a de que o diretor Joel Pizzini aproveitou a onda que trouxe Limite à boca do povo europeu e americano quando Martin Scorsese restaurou o longa e resolveu realizar algum produto relacionado a isso para ter facilidades financeiras. Em preto e branco e com a real intenção de se aproximar do filme de Mario Peixoto, o curta não chega nem perto e tem uma proposta clássica demais. Nada parece ser dito com sutileza e, apesar de belas imagens recuperadas do filme, as referências ao longa se resumem a coloração do curta.


Seca. Fenômeno natural que se caracteriza pela ausência ou atraso das chuvas ou pela má distribuição da água. Problema enfrentado pelo no Nordeste brasileiro há décadas e que poderia ser considerado batido se a urgência em o debater não fosse perene. Seca, de Maria Augusta Ramos, o longa da noite, trata desse tema acompanhando um carro pipa pelo sertão. As histórias dos povoados e cidades por onde o carro passa, mesmo aquelas que parecem não ter muita relação com a água e com a seca, são narradas de forma natural. O filme possui várias características sempre vistas em filmes documentários tradicionais, daqueles que a massa está mais acostuma a assistir, como: iluminação natural, acompanhamento do cotidiano dos personagens, planos abertos que contextualizam o espectador.
O que se vê de diferente em Seca é a ausência de qualquer depoimento. As histórias são contadas a partir de imagens, sem a necessidade de qualquer narração, diferente e mais eficiente do que feito no curta Ifá. Nos momentos onde os depoimentos seriam cabíveis, existem conversas entre o homem que guia o carro pipa e algum morador que recebe a agua, entre um morador e outro, entre familiares. Outro ponto forte do filme é deixar clara a necessidade de ainda se falar sobre a seca em produtos audiovisuais que cheguem ao público e que conscientizem. Apesar disso, e apesar do título, o filme peca ao retratar uma história com esperança demais e crítica de menos. Na ânsia de se falar sobre todo o contexto da seca no Nordeste, o longa fala sobre água, sobre política, sobre fé, sobre esforços, sobre medidas, e não foca em nenhum deles.



Ifá poderia ter ido além do que se diz e ousado mais nas imagens que apresentou, misturando os elementos do candomblé e retratando a história contada pelo personagem de forma mais poética, como a dança da mulher negra do início do filme. Mar de Fogo destoa de outros trabalhos de Joel Pizzini e seria mais interessante se optasse por manter a estética muda do filme Limite, obra prima do homenageado Mario Peixoto. Seca se perde em tantas informações e poderia optar por uma temática de denúncia, como por exemplo, ser mais incisivo em como a politicagem agrava os problemas da seca no Nordeste. Com três filmes com propostas bastante interessantes, a noite de sábado acabou sendo a mais decepcionante do Panorama.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

COBERTURA XI PANORAMA INTERNACIONAL COISA DE CINEMA

A terceira noite da Mostra Competitiva Nacional do XI Panorama Internacional Coisa de Cinema teve como tema a juventude. Suas rotinas. Seus desejos. Seus medos. Seus passados. Seus amores e desafetos. Uma sessão para refletir as cabeças tão enigmáticas dos jovens do nosso país.



Imagens dizem mais que mil palavras. Fotografias impressas são documentos que podem durar a eternidade. De forma original e inovadora, A festa e os cães, de Leonardo Mouramateus revela o diretor e seus amigos através de fotografias tiradas no making off do curta História de uma pena (apresentado no Panorama na noite de segunda-feira), em festas e nas ruas. Em off, os amigos contam momentos de suas vidas tão diferentes, relembram passagens e dialogam sobre passado, presente e futuro. A grande sacada do filme é a habilidade de Mouramateus em contar histórias. A narrativa é clara, simples e muito bem construída. As histórias são narradas como em multiplots: cada uma tem suas particularidades, começam, terminam e não voltam mais. O ponto de encontro entre elas são as próprias fotografias. Mesmo que seja um pouco enfadonho em alguns momentos, A festa e os cães é, definitivamente, um filme único, do tipo que não poderá ser referenciado sem parecer uma cópia mal feita e sem graça.


Um dos momentos mais aguardados da adolescência, a perda da virgindade, é o tema do curta Virgindade, de Chico Lacerda. Enquanto imagens de uma cidade qualquer no Pernambuco passam na tela, a voz de Chico é ouvida em off narrando acontecimentos de sua vida, desde os primeiros desejos sexuais, até o momento em que descobre o sexo. Ainda nas imagens, vemos uma seleção de variados corpos masculinos, referência ao desejo, ao prazer, à beleza do corpo humano em sua essência. O problema, aqui é a forma como a história é contada, as palavras usadas e a certa “forçassão de barra” em se naturalizar tudo o que se diz. Nesse contexto, apesar de abordar um tema bastante pertinente, à medida que a sociedade brasileira ainda trata o sexo como tabu, o que faz os jovens ficarem bastante inseguros sobre o tema, Virgindade tem um ritmo um pouco lento e uma narrativa que poderia ser mais bem elaborada. 


Uma jovem está em uma balada. O som ensurdecedor da música incomoda o espectador. Segundos depois, a jovem está correndo. Parece fugir de alguém. Ela cai. Vira-se, encara a câmera e grita. Agora já não há mais música, apenas o grito da jovem. Grito que incomoda, ensurdece, agoniza, apavora. Mate-me por favor, de Anita Rocha da Silveira, sustenta essa atmosfera gerada na primeira sequência até seu último minuto. A história gira em torno de quatro amigas adolescentes que vivem no Rio de Janeiro em uma época de uma onda de assassinatos de jovens. O cotidiano delas (a escola, os amores, as festas, as risadas) estão sempre presentes, mas é o subjetivo que mais chama a atenção. Elas estão com medo dessas mortes, ou há alguma sensualidade que as conquista por trás do perigo? Com planos gerais que mostram a Barra, local onde elas moram, o filme utiliza a estranheza de uma parte da cidade do Rio de Janeiro para revelar uma imensidão que assusta. Ou que conquista.
E é graças a uma direção de núcleo competente e intepretações convincentes que logo nos damos conta de que mesmo os jovens da história estão confusos em relação ao que sentem sobre essas mortes. É claro que há um interesse demasiadamente grande. E não em saber quem é o assassino – dúvida que não toma o filme em nenhum momento – e sim em saber como as mortes aconteceram, quem eram as vítimas. Um interesse, talvez, em sentir na própria pele pelo que as vítimas passaram. Com planos bem compostos e alguns bastante longos, trilha sonora diversificada e sonoridade que, junto da montagem, segura o ritmo e a tensão, o filme tem imagem e som como grandes trunfos para fazer o espectador não sair da sala de cinema durante seus mais de 100 minutos, mesmo que o conjunto do longa não agrade tanto assim. E no desfecho, mesmo que de forma simples, uma constatação inesperada e arrebatadora. Ou, apenas, mais um monte de dúvidas.



A juventude apresentada pelos filmes da noite parece compor muito bem os jovens brasileiros. Curiosos pelo sexo, sedentos de atenção, conquistados pela exclusividade, expostos às dificuldades da vida, desanimados com as escolas, e ainda no desejo de curtirem a vida adoidados como o personagem de Matthew Broderick do filme da década de 1980. Apesar de temas um tanto clichês, os três filmes se mostram bastante inovadores na forma como essas narrativas são contadas, atribuindo a histórias comuns ou até corriqueiras para a sociedade brasileira (jovens num programa para quem não completou o ensino médio, um garoto descobrindo a sexualidade e garotas com os sentimentos à flor da pele em consequência de assassinatos muito inesperados) em eventos interessantes e bastante instigantes. 

COBERTURA XI PANORAMA INTERNACIONAL COISA DE CINEMA

O segundo dia da mostra competitiva do XI Panorama Internacional Coisa de Cinema foi um dos mais aguardados de todo o evento. Segundo Cláudio Marques, coordenador do Panorama e curador dos longas das mostras nacional e internacional, a sessão ficou conhecida nos bastidores como “sessão estranheza”. E não é para menos.



Um escritório claustrofóbico. Cinco operários. Um patrão. O homem que virou armário, de Marcelo Ikeda, apresenta uma sociedade ultrapassada, limitada. Aqui, não há a necessidade de se utilizar das novas tecnologias para criticar o vício em trabalho. De forma muito inteligente, o média opta por esse espaço que lembra as décadas passadas e o trabalho com o papel, e não com computadores, para exemplificar claramente o trabalho operário. Com apenas uma fala durante o filme, esse é o tipo de produto que se constrói pelo som e pelas imagens, pelos olhares e pelos gestos dos personagens. No som, o silêncio e os “barulhos” cotidianos do escritório que o quebram, como o relógio que anda vagarosamente, a mulher que lixa as unhas, o homem que carimba os papéis, a mulher que conta o número de folhas, o patrão que abre e fecha gavetas bruscamente. Nos personagens, o suor, a indiferença, a falta de importância de uns com os outros e uma única palavra que muda, de forma muito poética, um mundo todo.


Um casal de idosos almoça em uma cozinha apertada. Um plano longo, carregado de realidade pelo ângulo escolhido e pelas interpretações dos atores. Os dois intérpretes são os pais de André Novais, diretor de Quintal, filme vencedor no Festival de Brasília. No média, a história gira em torno desse casal e das improbabilidades e obviedades do cotidiano de um casal de idosos. A estranheza? Uma espécie de portal que surge nesse quintal. Um portal que representa, metaforicamente, o quanto a vida dos idosos pode ser interessante e agitada no cotidiano. Ao menos para eles, que, quando chegam nessa idade, percebem que são capazes de fazer muito mais do que era esperado. Cada dia acaba se tornando uma verdadeira aventura. Com cenas resolvidas em poucos planos (geralmente longos e fixos), o filme mescla o documental e a ficção, tem efeitos visuais bastante realistas e faz rir e refletir sobre a vida e o futuro.


O calor e o sol são a únicas certezas na vida de Guima, um poeta que não consegue escrever um livro patrocinado pelo estado da Bahia. Com uma câmera na mão, o longa da noite, Tropykaos, de Daniel Lisboa, acompanha os dias na vida desse jovem, que perambula pela escaldante capital baiana de tênis, calça e moletom. Logo nos primeiros planos, o espectador é lançado para o cotidiano de Guima (ainda mais quando o filme é assistido na própria Salvador), e começa a entender sua angústia rapidamente. O ritmo criado ao longo da trama e o som que induz o espectador a sentir as emoções do protagonista são o grande trunfo do filme. Entretanto, sente-se falta de mais algumas ousadias. Tropycaos é um filme que permeia o fantástico. Guima não está apenas sofrendo com o calor, ele está, literalmente, queimando, entrando em combustão. Momentos como quando o sol parece queimar a tela do cinema, ou quando uma montagem frenética alterna entre Guima e outros elementos que representam o agito e o calor nas ruas de Salvador são as melhores sequencias do filme, mas são mais raras do que deveriam. 
O roteiro, de Guilherme Sarmiento, é claramente metafórico. O calor sentido por Guima não é causado apenas pelo sol, o astro que queima lá em cima. O próprio calor tem muito mais a ver com os medos, as angústias, os sentimentos do protagonista. O sol que queima, é a pressão de um governo que espera que a arte de Guima seja feita de forma processual. É a burguesia, representada por sua própria família, sempre preocupada com as aparências. É a religião, que exige a escolha de um Deus, de um demônio, de uma fé única, inabalável e incontestável. É, acima de tudo, a intolerância que tomou conta de nossa sociedade nos últimos anos, que julga, aponta e mata todos os dias no Brasil. Para deixar essas representações claras, Sarmiento opta pela fantasia de forma sublime. O ar condicionado e a falta que ele faz, sem dúvidas, incomoda mais que o necessário, chegando ao exagero. O produto final das ideias do roteirista poupa no experimentalismo, resume a negritude baiana em apenas um radialista e algumas representações que poderiam ser ressaltadas ficam apenas numa metáfora sutil e muito sem graça.


Nos últimos anos, o cinema brasileiro tem recebido um número nunca antes visto de filmes que se entregam ao mundo do fantástico de forma muito positiva. Alguns deles, como no caso de Tropykaos, ainda há um medo de se experimentar essa tendência. O mais interessante desses filmes é como a fantasia é utilizada como elemento que nos faz pensar sobre como a sociedade tem vivido e como estamos condicionados a pensamentos que são mais que ultrapassados. Os curtas da noite são mais ousados e, apesar de o público ainda não estar habituado a esse tipo de narrativa e de linguagem cinematográfica, são filmes que conquistam aos poucos. O Panorama, por sorte, ainda é um festival jovem em idade e, por isso, pronto para receber essas novas tendências e revelar o quanto elas são significativas para o cinema brasileiro.

sábado, 7 de novembro de 2015

COBERTURA XI PANORAMA INTERNACIONAL COISA DE CINEMA

A Mostra Competitiva Nacional do Panorama contou, em cada sessão com dois curtas e um longa-metragem. No primeiro dia (quinta-feira, 28), filmes com aspecto documental que tocam o espectador mostraram que o festival prometia muita coisa.



Com uma câmera na mão, um garoto filma tudo o que vê pela frente. Seria o futuro Godard? Ou Glauber Rocha? Ou seria o americano Orson Welles? Ou Dreyer, Truffaut, Bergman? Apesar de algumas características documentais, o curta Outubro acabou, que abriu a competitiva nacional na noite de quinta-feira (28) não é a biografia de nenhum grande cineasta. Ou seria um pouco de todos? Com planos curiosos, compostos de forma muito artificial e alternando entre o irritantemente harmônico e o não convencional, o filme de Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes parece a representação de como todo cineasta se torna uma criança curiosa e sedenta quando encontra uma câmera e decide realizar seus filmes. Apesar de um ritmo agradável, com pontos bastante engraçados e sensíveis, o filme não é o tipo de realização que celebra a sétima arte que conquistará um público que não tenha uma paixão pelo cinema semelhante ao protagonista. Uma pena.


Filmado na Ceilândia, a cidade mais violenta e precária do Distrito Federal, Meio fio, de Denise Vieira, foi o segundo filme da noite. A realidade de um bairro com casas populares mostrado no primeiro plano do filme contrasta com os planos saturados e quase lúdicos da rádio onde a protagonista trabalha. Como em nosso cotidiano, o curta  se diverte com o trágico, brinca com personagens que sofrem por amor, pela falta dele, pela perda, pelas decepções. A câmera na mão que acompanha a protagonista e os diálogos sempre muito realistas conferem ao curta um caráter documental interessante, à medida que o espectador se questiona sobre as situações em que os personagens se encontram. Meio fio também é uma oportunidade bastante boa para ressaltar como as personagens femininas fortes e decididas estão ganhando espaço no cinema brasileiro.


Outro filme que merece destaque pela representatividade feminina é o longa da noite: Olmo e a Gaivota, novo filme de Petra Costa. Com este, Petra continua mostrando a que veio e traz mais um filme notório para o cinema brasileiro. Aqui, a personagem feminina da vez é uma atriz de teatro que engravida do marido e tem que enfrentar essa nova fase da vida. Interessante observar como o enredo proposto por Petra não dramatiza a situação de Olivia, a protagonista, nem apenas glorifica a maternidade. Petra pesa tudo na balança e aborda o tema da gravidez como ele realmente é: um tema delicado e cheio de controvérsias. Há felicidade, claro, mas também, estão presentes os questionamentos, os medos e os anseios de uma mulher que vê sua vida prestes a mudar devido à gravidez.
E logo no início do filme, quando Petra já havia conquistado o espectador com seus personagens fortes e muito verdadeiros, surpreende-se quando Olivia, enclausurada em seu apartamento por problemas na gravidez, volta-se à câmera e responde uma questão feita por quem está atrás dela. O filme, que já possuía uma câmera na mão que se permitia movimentos muito sutis, ganha mais características documentais e momentos de total ficção são compensados com depoimentos tocantes da protagonista e conversas com quem está atrás da câmera. Conversa-se, no final das contas, com o espectador. Para diversificar esses dois momentos, o trabalho com o som estabelece uma trilha sonora muito diferenciada para os momentos dos depoimentos. Claro que essa estética não irá agradar a todos os espectadores do longa. Incomodará, inquietará. Mas que seja Petra, com toda sua sensibilidade, a causar essas emoções pela diversificação do cinema nacional, que, um dia, será muito bem aceita, muito bem-vinda.



Se há algo de que o Panorama Internacional Coisa de Cinema pode se orgulhar muito é a forma como a curadoria consegue reunir filmes que dialoguem uns com os outros em uma mesma sessão. Os aspectos documentais e as sensações de desconforto causadas pelos filmes da noite de quinta-feira fazem da primeira sessão do festival mais uma que segue essa regra. E que bom que seja assim. Além disso, os filmes da noite foram muito bem selecionados para que os espectadores (que lotaram duas das salas onde a sessão foi exibida) saibam que muito ainda está por vir. E claro, é bom ver, em uma competitiva nacional com 16 curtas e oito longas, quatro curtas/médias e três longas serem dirigidos por mulheres. Três desses sete, foram apresentados na sessão de quinta, momento em que mulheres fortes e que vem ganhando destaque no cinema nacional foram representadas e homenageadas de forma digna. 

COBERTURA XI PANORAMA INTERNACIONAL COISA DE CINEMA

O XI Panorama Internacional Coisa de Cinema teve sua premiação anunciada na noite de quinta-feira (04). Abaixo, confira um apanhado sobre o Panorama, com comentários sobre o evento e listas dos vencedores e comentários sobre cada conjunto de prêmios da mostra competitiva nacional. Ao longo dos próximos dias, serão postadas no blog as críticas dos 24 filmes (curtas, médias e longas) da mostra competitiva nacional.



O XI Panorama Internacional Coisa de Cinema iniciou, em Salvador, no dia 28 de outubro com o filme Tudo o que aprendemos juntos, de Sérgio Machado e com Lázaro Ramos, Kaique de Jesus e Elzio Vieira no elenco. Além do quarteto, o produtor Fabiano Gullane esteve na sessão para conversar sobre o longa. O Panorama ocorre, também e com a exibição dos mesmos filmes no Cine Teatro Cachoeirano, na cidade de Cachoeira, no recôncavo baiano, onde é apresentado pelo Cine Clube Mario Gusmão, projeto de extensão do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.
Antes das exibições dos filmes, aconteceram duas oficinas: a de assistência de direção e a de escrita crítica. A oficina de assistência de direção para cinema e TV foi ministrada por Cecília Amado, assistente em filmes como O que é isso companheiro? e Guerra de Canudos, diretora do longa Capitães da Areia, o documentário Onde dormem os sonhos (em finalização) e da série de TV Meu irmão nerd. A oficina de escrita crítica foi ministrada por Rafael Carvalho, membro da Abraccine, doutorando na UFBA e membro de curadoria do Panorama. Durante os dias do festival, foi ministrada, em Cachoeira, a oficina de sound design como sonoridade total com Edson Secco, compositor de sonoridades de longas como: Paulina, LYGIA CLARK, Com os punhos cerrados, Dominguinhos, ELENA, Depois da Chuva, além dos curtas: Vaticano, Version Française e Olhos de Ressaca.

Mate-me por favor, de Anita Rocha da Silveira
Durante o festival foram apresentadas três mostras competitivas, havendo uma premiação para cada uma delas. A Mostra Competitiva Nacional, com oito longas e 16 filmes em curta ou média metragem; a Mostra Competitiva Baiana, com três longas e onze curtas ou médias; e a Mostra Competitiva Internacional, com seis longas e doze curtas ou médias. Ainda houveram as mostras Panorama Brasil, com 34 filmes em longa, curta e média metragem; a mostra de filmes de Animação, com seis filmes de cinco países diferentes; a Mostra Panorama Italiano, com dois filmes do país europeu; a Mostra Clássicos Franceses, com onze filmes franceses de diversas décadas do século passado, incluindo o clássico Viagem à lua, de George Méliès; a Mostra ONS de Cinema Brasileiro, com filmes nacionais restaurados e bastante raros; a Retrospectiva Werner Schroeter, com dez filmes do cineasta alemão; e o Panorama Internacional, com cinco filmes em longa-metragem de países americanos e europeus.    
Abaixo, segue a lista com os prêmios concedidos pelo festival.
Competitiva Nacional:
- Prêmio Especial do Júri em Curta-Metragem: Quintal, de André Novais
- Melhor Curta-Metragem: História de uma Pena, de Leonardo Mouramateus
- Prêmio Especial do Júri em Longa-Metragem: Boi neon, de Gabriel Mascaro
- Melhor Longa-Metragem: Mate-me por favor, Anita Rocha da Silveira

História de uma pena, de Leonardo Mouramateus
Prêmio João Carlos Sampaio do Júri Jovem:
- Melhor Curta-Metragem: Rapsódia para o homem negro, Gabriel Martins
- Menção Honrosa para Longa-Metragem : Gabriel Mascaro, pela direção de Boi neon
- Melhor Longa-Metragem: Para minha amada morta, de Aly Muritiba

Prêmio ABRACINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) de Melhor Filme: Boi neon

Prêmio Ficunam (filme já selecionado para o festival de cinema mexicano): Boi neon, de Gabriel Mascaro

Premio IndieLisboa (filmes já selecionados para o festival de cinema português)
- Curta-metragem: Quintal, de André Novais
- Longa Metragem: Mate-me por favor, de Anita Rocha da Silveira

Premio Correio Walter da Silveira – Personalidade Artística: Aly Muritiba, diretor e roteirista do curta-metragem Tarântula e do longa-metragem Para minha amada morta

Para minha amada morta, de Aly Muritiba
Competitiva Baiana:
- Menção Honrosa: Alegoria da dor, de Matheus Viana, e Sujeito oculto, de Amanda Gracioli
- Premio Especial do Júri: Haram, de Max Gaggino
- Melhor Filme: Retomada, de Leon Sampaio

Competitiva Internacional:
- Menção Honrosa em curta-metragem: Baile de Família, Stella di Tocco
- Melhor Curta Metragem: Aissa, de Clément Tréhin-Lalanne
- Melhor Longa-Metragem: Rabo de Peixe, de Joaquim Pinto e Nuno Leonel

Filmes de gênero e filmes autorais, filmes de ficção, de documentário e filmes híbridos (que misturam o documentário e a ficção), filmes que criticam e debatem as mais variadas realidades sociais brasileiras, filmes que alertam sobre os preconceitos e as intolerâncias que tomam conta de nosso país de forma aterradora, longas, médias e curtas metragem que abordam o real e o irreal, que tornam o mais comum cotidiano na mais incomum das histórias, filmes que exploram tanto histórias e personagens clichês, quanto personagens impensáveis, filmes feitos por homens e mulheres, filmes com homens e mulheres como protagonistas. O Panorama Internacional Coisa de Cinema se firma, em sua décima primeira edição, como um dos festivais mais ecléticos e receptores do Brasil, pronto para receber os jovens cineastas e suas novas histórias, novas formas de exploração da linguagem cinematográfica.

Quintal, de André Novais 
Com uma seleção difícil de ser avaliada, tamanha a qualidade técnica de cada filme escolhido para a competitiva nacional, o Panorama foi palco de filmes que primam pela interpretação forte de seus atores (contando com algumas das grandes promessas entre atores e atrizes de todo o Brasil) e por marcantes direções de atores, por produtos que optam por fotografias corajosas, com planos longos, iluminação diferenciada, profundidade de campo trabalhada e composições minimalistas, longas, médias e curtas que não se prendem apenas à imagem e reafirmam o quanto o som e suas linguagem devem ser lembradas em um cinema que parece deixá-lo de lado. Filmes que retratam o Brasil e suas dimensões inimagináveis, com a exploração de diferentes culturas, lugares e habitantes. Filmes onde o imprevisível, o incomum toma conta da tela.
Dentre os filmes em longa-metragem da mostra competitiva nacional, vale a pena destacar alguns pontos de alguns deles. A fotografia americanizada e a interpretação hipnótica de Fernando Alves Pinto em Para minha amada morta, aliadas à direção de Aly Muritiba são elementos que tornam o filme uma novidade interessante para o cinema brasileiro. Em Mate-me por favor, primeiro longa de Anita Rocha da Silveira, verifica-se uma maturidade da cineasta ao dirigir um elenco jovem de forma surpreendente, além disso, a forma como é tratado o tema e a forma como Anita ocupa e revela o espaço em que as personagens vivem é nova e muito propícia. Boi neon, de Gabriel Mascaro, possui uma das fotografias mais interessantes do ano, com quadros compostos de forma belíssima, movimentos de câmera sutis e iluminação minimalista, e com direção de elenco impecável e uma inteligente construção de personagens e de sua relação com o espaço e com os indivíduos com quem se vive.

Rapsódia para o homem negro, de Gabriel Martins
Dentre os curtas, está Meio fio, produto realizado na Ceilândia, periferia do Distrito Federal. Com temática que explora a vida comum de uma radialista, o filme torna o cotidiano algo surpreendente, engrandecendo a personagem na tela. Quintal, de André Novais, mistura o documental com o fantástico e, da mesma forma que no curta brasiliense, inova ao tornar o cotidiano (desta vez de um casal de idosos) em algo mágico. A Festa e os Cães, de Leonardo Mouramateus reinventa o uso de fotografias impressas em um filme e traz a narrativa, seja de acontecimentos em festas ou de músicas, como força para se mostrar simples, mas um produto audiovisual de qualidade. Rapsódia para o homem negro mistura a negritude com o misticismo da cultura afro-brasileira e traz um filme necessário em temática, com ritmo que causa diversas sensações no espectador. Tarântula, de Aly Muritiba, é um filme que prima pelo estranho, pelo incomum, por tudo aquilo que possa incomodar o espectador. Personagens, fotografia, arte e som se tornam aliados num filme que prende o espectador e surpreende do começo ao fim. História de uma pena, também de Mouramateus, traz diálogos inteligentes e bastante corriqueiros, inova usando grande parte do que se fala fora dos quadros registrados e, como outros filmes do festival, confere ao comum, ao cotidiano seu verdadeiro valor.
O Panorama Internacional Coisa de Cinema tem se firmado cada vez como um festival descontraído, bem-humorado e que serve como forma de festejar e divulgar o cinema brasileiro. Apesar de não ser acessível a todos os moradores da cidade de Salvador devido aos horários de exibição dos filmes e à localização do Cine Itaú Glauber Rocha, o festival lotou a maior parte das sessões das mostras nacional e baiana. Os espectadores se mostraram muito satisfeitos com o festival e foram se tornando cada vez mais opinativos conforme os dias passavam. Passo importante para que o cinema se aproxime cada vez mais dos espectadores, tanto para que eles assistam mais filmes, quanto para que realizem os seus próprios. Uma ótima safra de filmes do cinema brasileiro está chegando às telas de todo o país, agora é com o público brasileiro, que, ano após ano, tem se entregue cada vez mais ao cinema nacional.

Boi neon, de Gabriel Mascaro
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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A NOVA ONDA FRANCESA: Uma breve análise sobre os diferentes filmes da Nouvelle Vague

No ano de 1950, o crítico cinematográfico francês André Bazin criou a revista Cahiers du Cinéma, referência até hoje. No mesmo ano o arquivista cinematográfico Henri Langois cofundou a Cinémathèque Française, um arquivo cinematográfico que fazia constantes exibições em Paris. Eram os dois passos iniciais para a Nouvelle Vague. A nova onda francesa contaria com críticos da Cahiers du Cinéma que frequantavam regularmente as exibições da Cinémathèque, como: François Truffaut, Jean-Luc Godard, Jacques Rivette e Eric Rohmer.


Cena do longa As Diabólicas, de Henri-Georges Clouzot
Segundo Haydn Smith (2011), “O jornal desprezava o cinema francês conservador da época e, no lugar dele, defendia diretores americanos e o desenvolvimento de uma teoria autoral. A assinatura reconhecível de um diretor era vista com grandeza”. Na busca pelo cinema autoral e pela quebra com as regras conservadoras, os novos cineastas foram às ruas com câmeras portáteis de alta qualidade e películas mais rápidas, o que permitia utilizar a iluminação natural de qualquer lugar externo. Apesar de filmes ainda tímidos, tudo se iniciou com longas de Godard, Rivette e Rohmer. Antes deles, Henri-Georges Clouzot, entretanto, realizou As Diabólicas, sobre suas mulheres que planejam assassinar o diretor tirano de um internado. Uma, a esposa, a outra, a amante do homem. Apesar de simples na forma como foi filmado e editado, o longa tem impactos raros através de planos intimistas e eficazes para a época que, com certeza, inspirariam Alfred Hitchcock na realização de Psicose. Além disso, as interpretações são marcantes e os personagens muito bem contruídos com as expressões corporais e faciais. Não é preciso se falar muito sobre eles em qualquer tipo de introdução, tudo é feito de forma muito sutil.

Os Incompreendidos, de François Truffaut
Clouzot, com sua simplicidade e seu estilo contido, influenciou o cinema do gênero de suspense na época e o influencia até hoje, entretanto, foi, também, alvo de crítica do novo cinema francês, justamente  por ser um exemplo de filme de gênero com perda total da autoria e das novidades que o cinema tanto pedia. Em Hollywood, William Wyler lançava o drama histórico Ben-Hur (1959), e Billy Wilder, a comédia Quanto Mais Quente Melhor (1959). Não era o que o grupo francês procurava. O que se assemelhava a eles estava muito mais próximo. O cinema nórtico de Ingmar Bergman e Carl Theodore Dreyer, por exemplo, era uma influência muito mais positiva, à medida que abordava os questionamentos e a psiqué humana de forma artística. Apesar de ter sido banido no Festival de Cannes em 1958 por suas críticas ao cinema francês, Truffaut triunfou no ano seguinte com Os Incompreendidos (1959), era um prelúdio do que mais tarde seria o verdadeiro estouro da Nouvelle Vague com Acossado (1960) de Godard. Os Imcompreendidos era uma redescoberta francesa do neorrealismo italiano. Com imagens ao ar livre de um garoto de 13 anos que vive uma infância confusa, é impossível não recordar Ladrões de Bicicleta (1948), de Vittorio De Sica. A cidade, Paris, torna-se uma personagem tão importante quanto qualquer ser humano e os questionamentos do jovem Antoine sobre a vida se intensificam com a montagem acelerada e com movimentos de câmera precisos.
Cena da clássica sequência do apartamento em Acossado, de Jean-Luc Godard
Em 1960, década em que Bergman, por exemplo, lançaria alguns de seus mais importantes e significativos filmes, Jean-Luc Godard apresentou o filme que rompeu com as regras do cinema francês definitivamente. Acossado é um filme inicialmente confuso sobre um homem que foge da policia e seu relacionamento com uma jovem. A medida que o filme se passa, entretanto, o espectador é situado na trama e começa a fazer parte da história. Para isso, o longa foi feito com câmera na mão, acompanhando os personagens, abusa na profundidade de campo, e é divido em três partes, a primeira se dá até o protagonista encontrar sua companheira, a segunda, até a polícia encontrar a companheira e o sonho dos amantes acabar, e a terceira é o desfecho trágico, mas esperado. O neorrealismo atacando novamente. E a cidade, mais uma vez, fala. Fala com seus prédios, suas ruas, seu povo. Cenas se estendem com diálogos muito marcados e um pouco cansativos, mas até nisso se vê uma crítica ao cinema clássico onde fala-se muito e conclui-se pouco. Em Acossado, quando os personagens não se calam é por que o que tem a dizer é importante, são questões humanas que permeiam a vida de todos em algum momento. 

Cena antológica dos personagens Jules, Jim e Catherine correndo na ponte que, metaforicamente,
 os leva até o novo, o desconhecido, às surpresas no filme Jules e Jim, também de Truffaut. 
Jules e Jim (1962), de François Truffaut, trouxe uma historia inovadora sobre uma mulher e seus dois amores, Jules e Jim. No enredo, ela acaba escolhendo um deles, se casa e constrói uma vida com o homem. Todavia, em certo momento, os três se reencontram e o passado vem à toda. Enquandramentos livres de geometria formal e poeticamente compostos mostram, além de personagens e suas ações, os espaços que “abrigam” esses personagens. Mais uma vez, a cidade é Paris, uma personagem constante nos filmes da Nouvelle Vague. Uma personagem com várias faces, e nenhuma delas incansável ao gosto do público. Os movimentos de câmera são precisos em captar os movimentos humanos e os espaços estáticos por onde se passa. Aqui, ainda há a presença dos diálogos bem compostos que vimos em Acossado, todavia, menos repetitivos, cansativos e enfadonhos. Os diálogos em Jules e Jim são mais objetivos e diretos àquilo que se deseja dizer.

Claude Lelouch, Jean-Luc Godard, François Truffaut,
Louis Malle e Roman Polanski no 21º Festival de Cannes em 1968 
A Nouvelle Vague, a nova onda francesa, foi, sem dúvidas um movimento artístico muito influente. Depois dele, diversos outros países do globo – influenciados, também, pela explosão internacional da contracltura dos anos 60 -,  aderiram às suas próprias novas ondas, cada qual descontruindo com as convenções audiovisuais impostas pelo cinema. Alguns nomes que podem ser citados são: Bertolucci e Pasolini, na Itália, Polanski, na Polônia, Glauber Rocha, no Brasil, Win Wenders, R. W. Fassbinder e Herzog, na Alemanha. Os filmes da Nouvelle Vague não se preocupavam apenas com as interpretações dos atores e com termos muito técnicos, mas, também, com a “atuação” da câmera, a forma como ela se comportava e apresentava o espaço e os atores, os outros dois elementos que constituíram a essência dos filmes da nova onda francesa. Era a forma de, mais uma vez, a arte estrapolar com regras e eliminar preconceitos através da ainda tão jovem cinematografia.

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quarta-feira, 23 de setembro de 2015

COBERTURA 48º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO

Big Jato, de Claudio Assis, vence melhor filme do ano. Para Minha Amada Morta, de Aly Muritiba, é o mais premiado da noite, incluindo melhor direção. Dentre os curtas e médias, Quintal, de André Novais foi o destaque e Nathália Tereza vence melhor direção na categoria. Confira todos os vencedores e comentários sobre o 48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.



O 48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro ofereceu, entre os dias 15 e 22 de setembro, inúmeras atividades ao público que trabalha com cinema e audiovisual ou se interessa pela área. Na noite do primeiro dia do evento, aconteceu a estreia do filme Um Filme de Cinema, novo documentário em longa-metragem de Walter Carvalho. Na manhã do dia seguinte, o cineasta participou de um debate sobre o filme e a tarde de uma master classe sobre fotografia. Mais duas master classes aconteceram durante o evento: uma com Marcos Bernstein sobre roteiro, e outra com Marcelo Torres sobre direção de produção. As mostras de filmes do ano foram: Festivalzinho (mostra de filmes de curta-metragem com temática infantil em parceria com a Mostra Cinema Infantil de Florianópolis), Mostra Brasília (com filmes feitos no Distrito Federal), Mostra Panorama Brasil (com cinco filmes em longa metragem selecionados dentre os que não foram escolhidos para a competitiva), Mostra Continente Compartilhado (filmes produzidos pelo Brasil e outros países) e Mostra Competitiva (filmes em curta, média e longa-metragem de todo o Brasil).
Os filmes apresentados na Mostra Panorama Brasil já mostram como o Festival dá preferência aos filmes feitos na macrorregião sul brasileira: dois cariocas, dois paulistas e um do Distrito Federal. Foram eles: Mais do que eu Possa Me Reconhecer, de Allan Ribeiro, Através, de André Michiles, Diogo Martins e Fábio Bardella, Olhar de Nise, de Jorge Oliveira e Pedro Zoca, 5 Vezes Chico – O Velho e Sua Gente, de Gustavo Spolidoro, Ana Rieper, Camilo Cavalcanti, Eduardo Goldenstein e Eduardo Nunes, e Asco, de Ale Paschoalini. Dentre os cinco, vale ressaltar que ao menos dois deles (Mais do que eu Possa Me Reconhecer e 5 Vezes Chico) mereciam ter ocupado um lugar na Mostra Competitiva de longa nos lugares de Santoro: O Homem e Sua Música e Prova de Coragem.
Na Mostra Competitiva, a situação geográfica é semelhante. Não há nenhum representante da região Norte do país e apenas três da região Nordeste (sendo um deles, uma coprodução do Distrito Federal). Os demais filmes são distribuídos entre os estados que compõe a macrorregião Sul: quatro são de São Paulo, um do Rio de Janeiro, dois de Minas Gerais, três do Distrito Federal, um do Mato Grosso do Sul, dois do Paraná e um do Rio Grande do Sul. Os longas do festival foram: A Família Dionti, de Alan Minas (RJ), Fome, de Cristiano Burlan (SP), Para Minha Amada Morta, de Aly Muritiba (PR), Big Jato, de Claudio Assis (PE), Santoro: O Homem e Sua Música, de John Howard Szerman (DF), e Prova de Coragem, de Roberto Gervitz (RS). Dos seis filmes, entretanto, apenas dois mereceram realmente estarem no festival: A Família Dionti, com uma proposta fantástica deliciosa, e Para Minha Amada Morta, um drama pesado, realista e sem apelações dramáticas. Os demais filmes possuem problemas estéticos, de narrativa e de interpretação muito grandes e estão bem a baixo da média.

Filme de longa metragem
Melhor Filme de longa metragem: Big Jato
Melhor Direção: Aly Muritiba, por Para Minha Amada Morta
Melhor Ator: Matheus Nachtergaele, por Big Jato
Melhor Atriz: Marcélia Carataxo, por Big Jato
Melhor Ator Coadjuvante: Lourinelson Vladmir, por Para Minha Amada Morte
Melhor Atriz Coadjuvante – Giuli Biancato, por Para Minha Amada Morta
Melhor Roteiro: Big Jato
Melhor Fotografia: Para Minha Amada Morta
Melhor Direção de Arte: Para Minha Amada Morta
Melhor Trilha Sonora: Big Jato
Melhor Som: Fome
Melhor Montagem: Para Minha Amada Morta
Na premiação dos longas do festival, destacaram-se dois filmes: Big Jato e Para Minha Amada Morta, que dividiram 11 dos 12 prêmios concedidos pelo festival. O outro prêmio, de melhor som, foi dado ao longa Fome, mais interessante, seria entregar logo o prêmio a Para Minha Amada Morta, que tem sonorização muito superior aos demais, ou ao filme A Família Dionti, para dividir um pouco os Candangos. Dentre os prêmios recebidos por Big Jato, os únicos realmente merecidos foram o de melhor trilha sonora e melhor atriz, para Marcélia Cartaxo, que rouba todas as cenas em que aparece. Apesar de ter uma história interessante, o roteiro do filme exagera em alguns momentos e, novamente, A Família Dionti merecia ter levado. Apesar de ser um dos melhores atores de sua geração, Matheus Nachetergaele tem um desempenho fraco e bastante superficial no filme. Fernando Alves Pinto, também de Para Minha Amada Morta, teve um dos desempenhos mais incríveis dos últimos dois anos na telona e merecia ter saído com o prêmio. A impressão que fica é que o júri refletiu e decidiu que já que Claudio Assis, figurinha já carimbada no festival, não levaria o prêmio de melhor direção, melhor consolá-lo com o de melhor filme. Aly Muritiba, de Para Minha Amada Morta, entretanto, triunfou com o prêmio de melhor direção em seu primeiro longa-metragem. Dentre os prêmios conquistados por este filme, todos são muito merecidos. O longa paranaense é um daqueles filmes raros, com qualidade indiscutível, em anos bastante complicados para o cinema nacional.
Voltando aos números absurdos sobre os filmes do festival e seus estados, chegamos aos curta e média-metragens desta edição. Três deles, do estado de São Paulo: Command Action, de João Paulo Miranda Maria, À Parte do Inferno, de Raul Arthuso, e O Sinaleiro, de Daniel Augusto. De Minas Gerais, foram três curtas: Rapsódia para o Homem Negro, de Gabriel Martins, Copyleft, de Rodrigo Carneiro, Quintal, de André Novais Oliveira. Nos demais estados, um curta: Paraná: Tarantula, de Aly Muritiba. Ceará/DF: Cidade Nova, de Diego Hoefel. DF: Afonso é uma Brazza, de Naji Sidki e James Gama. Mato Grosso do Sul: A Outra Margem, de Nathália Tereza. Ceará: História de uma Pena, de Lonardo Mouramateus. Rio Grande do Sul: O Corpo, de Lucas Cassales. Mais uma vez, fica claro como os estados do sul do país são favoritos.

Filme de curta ou média metragem
Melhor Filme de curta ou média metragem: Quintal
Melhor Direção – Nathália Tereza, por A Outra Margem
Melhor Ator – João Campos, por Cidade Nova
Melhor Atriz – Maria José Novais, por Quintal
Melhor Roteiro: Quintal 
Melhor Fotografia: À Parte do Inferno 
Melhor Direção de Arte – Tarântula 
Melhor Trilha Sonora: Rapsódia para o Homem Negro
Melhor Som: Command Action
Melhor Montagem: Afonso é uma Brazza
Na premiação, Quintal se destacou merecidamente como melhor filme, melhor atriz e melhor roteiro. Dentre os outros filmes, também mereciam ter sido escolhidos como melhor curta ou media, filmes como: Rapsódia para o Homem Negro, Tarântula, O Sinaleiro e A Outra Margem. Dentre as atrizes, merece desta que Rejane Faria, representando a força da mulher e da cultura afro em Rapsódia para o Homem Negro. A escolha de melhor ator para o brasiliense João Campos, por Cidade Nova, não tem nada de imparcial. Fernando Teixeira, de O Sinaleiro (que também poderia levar, com facilidade, a melhor montagem), e Breno Benetti, de A Outra Margem, por exemplo, tiveram desempenhos melhores. Não há dúvidas, entretanto que A Outra Margem merecia o prêmio de melhor fotografia, e à À Parte do Inferno, o prêmio de melhor som. Além dos merecidos prêmios dados ao curta Quintal, o filme Tarântula também foi um dos acertos da noite ou receber o de melhor direção de arte.
Mas o melhor de toda a premiação foi, sem dúvidas, ver Nathalia Tereza levar o prêmio de melhor direção em curta-metragem. Agradável por ela tratar um agroboy como um homem apaixonado e entregue, que é uma figura sempre associada a uma postura machista e misógina, e que só se importa em contar quantas mulheres leva para a cama. Agradável por que, como Nathália mesma apontou, é um momento ótimo para vencer o prêmio, já que o festival foi forçado a ouvir a foz feminina que não cessou em vaiar Claudio Assis (que voltou a ser ouvida na premiação quando ele foi buscar o Candango de melhor roteiro e de melhor filme). Importante, também, por que A Outra Margem e apenas mais dois filmes da 48ª edição do festival foram dirigidos por mulheres. Não é, sem dúvidas, uma coincidência que Big Jato tenha levado o prêmio mais importante da noite.    

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