domingo, 23 de novembro de 2014

HOUSE OF CARDS – Parte II - PERSONAGENS

Em House of Cards, um elenco composto por estrelas e atores com pouco experiência compõe uma turma inteligente, sutil, natural e muito bem vinda para essa produção Netflix, tornando uma realização feita para a internet uma série tão imponente quanto qualquer outra grande produção para a televisão.


CONFIRA A PARTE I: ANÁLISE AQUI
CONFIRA A PARTE III: TEMPORADA POR TEMPORADA AQUI


Francis Underwood (Kevin Spacey): Francis, como já foi dito, é um homem sedento pelo poder. Nada no mundo parece mais importante que conquistar o poder. Para isso, Francis não mede esforços, não traça limites. A construção do personagem feita por Spacey resulta em um dos melhores trabalhos de interpretação dos últimos anos (seja na televisão, na internet, no cinema). Spacey se entrega totalmente a Francis e nos conquista como um clássico anti-herói. As expressões corporais e faciais do ator e sua naturalidade são o ponto forte da interpretação.


Claire Underwood (Robin Wright) Claire é uma mulher serena, comedida e sempre muito sutil. Aparentemente, a personagem representa aquelas esposas de homens ricos e poderosos que se submetem a tudo o que o marido exige. Por trás do rosto bonito e calmo, entretanto, Claire, de uma forma ou outra, tem Francis nas mãos. Ao lado dele, Claire compõe uma dupla imbatível que há muito já deixou o convencional de lado para se entregar a uma vida muito específica. A interpretação de Wright é sublime, brilhante. Assim como Spacey, a atriz construiu uma personagem memorável, com características muito próprias e uma personalidade muito forte. Diferente daquele personagem, entretanto, Wright criou uma mulher rígida e com poucas expressões (o que é proposital e positivo, levando em conta o machismo estadunidense).


Doug Stamper (Michael Kelly): Doug, o fiel escudeiro de Francis, faz parte desse jogo de interesses do patrão. Ex-alcoólatra, Doug está sempre ao lado de Francis, fazendo tudo o que é preciso para que este, e, por consequência, ele mesmo, sempre esteja por cima da carne seca. Talvez Doug seja o personagem mais enigmático de toda a série. E todo esse enigma só é construído graças a uma interpretação sutil e muito discreta de Michael Kelly, que chega a fazer o espectador esquecer da existência de seu personagem em alguns momentos da trama – uma referência a discrição que, obviamente, Francis exige do subalterno.


Presidente Garrett (Walker Michael Gill): Garrett é um presidente um tanto inseguro e bastante inexperiente. Cabe aos homens e mulheres que o líder escolheu para estarem ao seu lado ajudá-lo em suas tarefas. Apesar de uma interpretação ótima de Gill, a forma estúpida como o personagem é mostrado descaracteriza um pouco a figura de um presidente. Por outro lado, Garrett é, também, um deboche aos chefes de estado do mundo todo, sempre demonstrando ao povo que estão muito bem em sua sala presidencial, mas possuindo uma vida prestes a ruir por trás das cortinas da Casa Branca.


Zoe Barnes (Kate Mara): Rachel, a jornalista, é o tipo de pessoa que confunde coragem com imprudência. O tipo de jornalista que acha que possuir uma ou outra informação sobre essa ou aquela pessoa significa tê-la nas mãos. Rachel é o tipo de jornalista inexperiente. Francis, obviamente, consegue manipular essa personagem o tempo todo. Não sei dizer se é a falta de bom senso de Zoe ou a atuação sem graça de Kate Mara (não sabemos distinguir quando a personagem está cansada ou excitada), mas não vemos a hora de Francis, finalmente, dar um basta em sua relação com ela.


Peter Russo (Corey Stoll): Peter Russo é um alcoólatra que tenta se regenerar, mas fracassa o tempo todo. Apesar disso, Russo é um homem íntegro e que deseja fazer o bem para seu país. Francis, entretanto, sabe usar os homens e suas fraquezas e resove testar essa habilidade em Russo, promovendo-o como governador. Corey Stoll é mais um presente maravilhoso da série, representando, com perfeição, o homem que luta contra seus vícios, luta para ter o amor de seus filhos, luta pelo apoio de seu país, mas que fracassa em tudo por fazer escolhas erradas (ou fáceis).


Edward Meechum (Nathan Darrow): Meechum é o segurança oficial de Francis antes de ele se tornar Presidente dos Estados Unidos e depois disso. Em uma das cenas mais interessantes da série, Claire atrai Meechum para a teia dos Underwood e ela e Francis tem uma noite um tanto carnal com o segurança. Darrow apresenta a mesma característica de Michael Kelly: a transparência. E isso ainda pode ser visto em outros vários personagens da série, trabalhadores, homens e mulheres que sabem que é melhor não serem muito notados pelos demais para cultivarem sempre a confiança dos mais fortes.


Linda Vasquez (Sakina Jaffrey): Linda está tão envolvida nesse jogo sujo de Francis quanto qualquer outro ser humano que pisou e resolveu trabalhar na Casa Branca. É ela quem se torna Chefe de Estado no lugar de Francis, o que faz o protagonista se aproximar ainda mais dela. Linda tem origens cubanas e, por isso, acaba representando a diversidade na Casa Branca. Jaffrey é filha dos também atores indianos Madhur e Saeed Jaffrey, e faz jus ao nome da família com uma interpretação muito natural e que evidencia ora a força de sua personagem, ora o desespero da mesma.


              Outros personagens (e seus respectivos intérpretes): Christina Gallagher (Kristen Connolly), Rachel Posner (Rachel Brosnahan), Remy Danton (Mahershala Ali), Lucas Goodwin (Sebastian Arcelus), Raymond Tusk (Gerald McRaney), Jacqueline Sharp (Molly Parker), Nancy Kaufberger (Elizabeth Norment), Janine Skorsky (Constance Zimmer), Bob Birch (Larry Pine), Gillian Cole (Sandrine Holt), Cathrine Durant (Jayne Atkinson), Seth Grayson (Dereck Cecil), Ayla Sayyad (Mozham Marnò), Terry Womack (Curtiss Cook), Gavin Orsay (Jimm Simpson), Freddy (Reg E. Carthey).




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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

INDUSTRIALIZAÇÃO E OUTRAS COISAS MAIS...

Especial X Panorama Internacional Coisa de Cinema. Filmes: "Com Fome no Fim do Mundo" e "Brasil S/A"




O X Panorama Internacional coisa de cinema aconteceu durante os dias 29 de outubro e 5 de novembro contemplando as cidades de Salvador e de Cachoeira. Na capital baiana, o evento apresentou filmes no Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha e na Sala Walter da Silveira, com 129 filmes. Em Cachoeira, o evento durou até o dia 2 de novembro e foi realizado no auditório do Centro de Artes, Humanidades e Letras da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, em parceria com o Cineclube Mário Gusmão, uma extensão criada pela professora Cyntia Nogueira com a participação dos alunos do curso de Cinema e Audiovisual da UFRB. Em Cachoeira, foram apresentados 34 filmes. Dentre os filmes do festival, estavam curtas e longas-metragens, filmes de ficção e de documentário, filmes americanos, asiáticos, europeus, filmes de animação e em live-action. Filmes para todos os gostos e idades, sobre os mais diversos temas. Durante o festival, foram apresentados alguns filmes do americano Stanley Kubrick, do russo Sergei Eisenstein e da francesa Mia Hasen-Love.
Como morador da cidade de Cachoeira e estudante do referido curso de Cinema e Audiovisual, decidi fazer a cobertura dos filmes apresentados na cidade. Dos 34 filmes, tive a oportunidade de assistir e escrever sobre 29 deles (incluindo os dois filmes desta análise). São os filmes das Mostras da Competitiva Nacional, da Competitiva Baiana e Panorama Brasil (em Salvador, ainda foram apresentados filmes da Competitiva Internacional, Panorama Alemão, Panorama Italiano e Animage). Os 29 filmes (na ordem em que foram assistidos e tiveram suas críticas publicadas) foram: “Camila”, “A Era de Ouro”, “Ela Volta na Quinta”, “Menino da Gamboa”, “O Filme de Carlinhos”, “O Velho Rei”, “Materno”, “Antiok”, “10-5-2012”, “My Name is Now, Elza Soares”, “Castanha”, “O Clube”, “A História da Eternidade”, “Tejo Mar”, “Permanência”, “Parque Soviético”, “A Doce Flauta da Liberdade”, “Estátua!”, “Carranca”, “Ventos de Agosto”, “O Completo Estranho”, “Tenho um Dragão que mora Comigo”, “Sem Coração”, “O Bom Comportamento”, “Quinze”, “Nua por Dentro do Couro”, “Sinfonia da Necrópole”, “Com Fome no Fim do Mundo” e “Brasil S/A”. No blog ainda pode ser conferida a análise do filme “Homem Comum”, apresentado, durante o Panorama, em Salvador e, semanas antes, durante o Festival de Documentários de Cachoeira, o CachoeiraDoc, nesta cidade.

Equipe do Cineclube Mário Gusmão que realizou o X Panorama Internacional Coisa de Cinema na cidade de Cachoeira
“Com fome no fim do Mundo”, filme baiano de Marcus Curvelo e realizado pelo Cual (Coletivo Urgente de Audiovisual), que já possui mais de duas centenas de produções realizadas, conta a história de um músico que, enquanto não consegue ganhar a vida como musicista, passa os dias vendendo imóveis na cidade de Salvador. Raul Seixas, como o próprio “corretor” se denomina, vai de um lado a outro tentando tirar vantagem das vendas que tenta realizar, sempre sonhando em poder ter um carro caro, comprar um desses apartamentos que ele tenta tanto vender e ter uma vida farta. O curta, contemplado pelo edital “Arte em toda Parte”, da fundação Gregório de Matos, discute, assim, o desenvolvimento desenfreado da urbanização no contexto social brasileiro. Além disso, aborda como algumas classes trabalhadoras são mais beneficiadas que outras, devido a uma demanda social absurda e um desejo consumista e pelo poder que só cresce. O protagonista, devido a esses problemas, vagará pela cidade esperando que um milagre aconteça, mesmo sabendo que suas esperanças para ser o que realmente deseja, sejam praticamente nulas. Mas o personagem não tem a mínima chance de sobrevier ali por que não é esforçado? Ou por que o sistema o coloca em uma situação de impotência? E as vendas, por que elas não dão certo? Qual será o melhor caminho para isso? De quem é a culpa? Do músico, dos ricos, dos pobres, dos políticos ou de um sistema falho?

Filme: "Com Fome no Fim do Mundo", de Marcus Curvelo
“Brasil S/A” é um dos filmes mais comentados e adorados do ano. E não é para menos. O filme aborda a industrialização e a forma como o país cresceu nos últimos anos, apresentando imagens para que isso seja evidenciado. Rapidamente, tem-se uma contextualização mostrando os cortadores de cana e a chegada das máquinas no local onde eles trabalham. Assim, já inicia uma seleção de operários: os que aprenderem a mexer nas máquinas ficam com seus empregos, o que não aprenderem, voltam para casa desempregados. Depois, é mostrada a dualidade entre o tráfego caótico das cidades grandes e a tranquilidade utópica de um barquinho navegando em um rio – utópica, por que o homem que navega, vê ao seu redor a destruição da máquina e a inserção de uma ponte de concreto. Ainda é mostrada uma “solução” prática e cômoda para o problema do trânsito na cidade grande: o “Cegonha Drive”, um daqueles caminhões que carrega carros e que carregam os meios de locomoção com seus proprietários enquanto estes relaxam. Por fim, o filme, de caráter documental, apresenta uma sequência de imagens bem diferentes: a busca pela redenção em um culto, a montagem de carros, a escavação em busca de petróleo e a destruição da sociedade por sua alienação e comodidade. Nada melhor para definir o mundo de hoje.

Filme: "Brasil S/A", de Marcelo Pedroso
No Brasil, a primeira região a ser industrializada foi o sudeste devido à produção cafeeira e de cana-de-açúcar e os capitais resultantes delas. Após a Segunda Guerra Mundial, a Europa estava destruída e o Brasil acabou aumentando sua produção industrial para comercializar com aquele continente. De lá até hoje, a industrialização aumentou a cada ano e trouxe danos sérios para a sociedade. “Brasil S/A” não expõe isso de forma escancarada e sensacionalista, e sim, de forma sutil e muito metafórica para que o espectador pense em suas atitudes e no que elas acarretam apara a sociedade. Além de as imagens serem totalmente representativas e propícias para o longa, a fotografia do filme é maravilhosa, apresentando imagens que tomam a tela de forma única. Essa, entretanto, não é a única maneira encontrada para que o espectador esqueça a singularidade de o filme não possuir falas – o que gera um estranhamento para grande parte do público. A sonoplastia da produção também é incrível, intensificando ruídos como o do remo na água, do caminhar dos homens, do cortar da cana, do canto dos pássaros e os coloca no mesmo patamar que o som estrondoso dos navios, das serras elétricas, dos caminhões que cavam a terra. As músicas escolhidas para o filme são que dão o tom das emoções sentidas.

Marcus Curvelo, Ramon Coutinho e Bianca Muniz
“Com Fome no Fim do Mundo” e “Brasil S/A”, obviamente, dialogam a partir do momento que se debruçam sobre os avanços tecnológicos da sociedade, que acarretaram na construção de mais e mais prédios – supervalorizados desde a metade da década passada – e na crescente implantação de indústrias por todo país, bem como o uso de novas tecnologias para esses dois ramos: o imobiliário e o industrial. Enquanto “Com Fome no Fim do Mundo” aposta em um enredo narrativo mais clássico, perdendo-se em vários momentos, “Brasil S/A” aposta em inovar (como as próprias indústrias fazem o tempo todo) e apresenta uma produção diferenciada e surpreendente. Este, é o tipo de filme que, sem dúvida, atende a todos os seus propósitos. Na cidade de Cachoeira, os maiores destaques do festival foram os longas “My name is Now, Elza Soares”, da Mostra Panorama Brasil, e os longas da Competitiva Nacional “A História da Eternidade”, “Ventos de Agosto” e “Brasil S/A”. Abaixo, confira os vencedores da X edição do Panorama Internacional Coisa de Cinema.

VENCEDORES DO X PANORAMA INTERNACIONAL COISA DE CINEMA
Competitiva Nacional de Longas:
Melhor Filme: “Ela Volta na Quinta”, de André Novais
Prêmio Especial: “Casa Grande”, de Felipe Barbosa

Competitiva Nacional de Curtas:
Melhor Filme: “Sem Coração”, de Nara Normande e Tião
Prêmio Especial: “Quinze”, de Maurílio Martins

Prêmio IndieLisboa
Melhor Filme Longa: “Ela Volta na Quinta”, de André Novais
Melhor Filme Curta: “Quinze”, de Maurílio Martins

Prêmio Ficunam
“Ela volta na quinta”, de André Novais

O Panorama Internacional Coisa de Cinema é realizado com coordenação do cineasta Claudio Marques e com produção da cineasta Marília Hughes
Competitiva Baiana
Melhor Filme: “O Menino da Gamboa”, de Rodrigo Luna e Pedro Perazzo
Menção Honrosa: “10-5-2012”, de Álvaro Andrade.

Prêmio André Setaro – Melhor Filme Baiano (Júri APC-BA)
“Revoada”, de José Umberto Dias

Prêmio João Carlos Sampaio (Júri Jovem)
Longa: “Brasil S/A”, de Marcelo Pedroso
Curta: “Quinze”, de Maurílio Martins
Menção honrosa: “Mater Dolorosa”, de Tamur Aimara e Daniel Caetano

Competitiva Internacional
Longa: “Nagima”, de Zhanna Issabayeva – Casaquistão
Menção honrosa (longa): “Como desaparecer completamente”, de Raya Martin – Filipinas
Curta: “Xenos”, de Mahdi Fleifel – Reino Unido/Dinamarca


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MISTÉRIOS ENTRE O CÉU E A TERRA

Especial X Panorama Internacional Coisa de Cinema. Filmes: "Nua por Dentro do Couro" e "Sinfonia da Necrópole"



A segunda sessão do último dia do X Panorama Internacional Coisa de Cinema na cidade de Cachoeira, domingo (2), foi composta pelo curta “Nua por Dentro do Couro”, de Lucas Sá, e pelo longa “Sinfonia da Necrópole”, de Juliana Rojas, ambos filmes da Mostra Panorama Brasil. O primeiro, se passa em um prédio onde vivem dezenas de pessoas, duas delas, uma mulher mais velha e uma jovem, acabam cruzando suas vidas para além dos corredores e das escadas. O segundo é uma surpresa pra lá de agradável: um musical inteligente e engraçado sobre um coveiro que se apaixona por uma enviada do serviço funerário que está ali para reorganizar o cemitério em questão.
“Nua por Dentro do Couro” é um curta-metragem dirigido pelo estudante de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul, Lucas Sá. Segundo ele, o filme tem como objetivo, gerar um longa-metragem no futuro. A história, assim sendo, pode até parecer um pouco vaga e incompleta. Ainda segundo o diretor, é algo proposital para que todas as pontas possam ser amarradas no longa. O curta, dessa forma, mostra uma mulher que faz bolinhos para atrair alguém para seu apartamento. Uma vez lá, não há escapatória: a mulher leva a vítima para o banheiro e começa o sacrifício. E se as vítimas gostam dos bolinhos, algo dentro do banheiro está muito mais interessado na carne humana. Não nos é mostrado o que está dentro da banheira, a única coisa que vemos é o desespero e a devoção da mulher ao limpar o banheiro e alimentar seu “animalzinho”. Ou seria ela o animal desse monstro perverso? O que está escondido atrás da cortina da banheira? Por que a mulher está alimentando essa criatura? Quantas vítimas foram feitas e quantas pessoas ainda morrerão? Por que a mulher adora tanto esse ser que ela esconde? Será que essa “coisa” realmente existe ou é fruto de alguma imaginação? E qual o futuro disso tudo?

Filme: "Nua por Dentro do Couro", de Lucas Sá
Pelo nome e pelos primeiros minutos de filme, “Sinfonia da Necrópole” parece um filme tão denso e impactante quanto “Nua por Dentro do Couro”, mas não é. Pelo contrário, o filme é uma comédia musical debochada e romântica. A primeira canção do longa causa um certo espanto e não sabemos se aquilo é sério ou apenas uma brincadeira sem graça. Depois, um padre faz algumas piadas em relação à hóstia. Na sequência, mais uma cena musical. Pronto, o espectador pode relaxar na poltrona e assistir tranquilamente a um filme engraçado e espirituoso. Vale lembrar que, apesar de letras um pouco chatas, óbvias e com rimas convencionais, as músicas (referente ao instrumental) que foram compostas para o filme são incríveis, expressando cada momento de forma única. Outro ponto interessante são as metáforas usadas por Rojas, que também é a roteirista do longa. Ela usa o cemitério como a sociedade em que vivemos, como uma cidade, um grupo de seres humanos vivendo em um mesmo espaço. Como o resto da cidade de São Paulo, o cemitério esta superlotado. Na capital paulista, já não existem casas para tantos moradores, no cemitério, as covas estão terminando. A forma como Deodato, o coveiro, reage com essa intervenção no mundo dos mortos também é uma forma de dizer que algumas intervenções urbanas na natureza não estão certas.
Deodato é interpretado por Eduardo Gomes de forma muito natural e inteligente. Gomes é divertido e sempre está com aquele ar pastelão de heróis fracassados (facilmente identificados pelos espectadores). O medo, a paixão e os anseios do personagem são demonstrados de forma muito natural pelos olhos e expressões do ator. Jaqueline, a funcionária do serviço funerário, é interpreda por Luciana Paes, conhecida pelos trabalhos na televisão nas novelas globais “Fina Estampa” e “Além do Horizonte”. Paes apresenta a típica personagem feminina independente que não está disposta a largar a vida que escolheu por nada. Nesse contexto, a atriz possui feições muito fortes e concisas. Uma singularidade do elenco de “Sinfonia da Necrópole” diz respeito à voz. Rojas escolheu a dedo os intérpretes, optando por aqueles que, como Luciana, possuem uma voz excepcional, ou aqueles que, como Eduardo, não possuem a voz mais afinada do mundo, mas que possuem vozes perfeitas para seus personagens. O restante do elenco também não deixa a peteca cair e é composto por nomes como: Hugo Villavicenzio, Paulo Jordão, Germano Melo, Luís Mármora, Adriana Mendonça, Antônio Veloso e Augusto Pompeo.

Filme: "Sinfonia  da Necrópole", de Juliana Rojas

“Sinfonia da Necrópole” e “Nua por Dentro do Couro”, de certa forma, tratam, cada um à sua maneira, de elementos referentes à morte. À morte prática, de seres humanos ou outros animais, ou à morte metafórica da natureza, dos espaços, da esperança, da independência, dos amores. Enquanto “Sinfonia da Necrópole” é sucinta ao apresentar uma história sem novidades – claro que o fato de o filme ser um musical ambientado em um cemitério já é muito inovador, mas a história não possui nenhuma novidade narrativa, nada difere de tudo o que estamos acostumados a ver no cinema romântico cômico -, “Nua por Dentro do Couro” causa uma confusão na mente do espectador. O longa é um filme engraçado e divertido, com uma sacada aqui e outra ali. Nada além disso. As curiosidades expostas pelo curta são o maior trunfo da produção. Os questionamentos, quem sabe, só serão respondidos no longa-metragem. Uma ótima forma de convencer o espectador de que vale a pena assistir a essa curiosa sequência. É esperar para ver.

Conversa com Juliana Rojas após a sessão dos filmes.
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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

ENCONTROS E DESENCONTROS

Especial X Panorama Internacional Coisa de Cinema. Filmes: "O Completo Estranho", "Tenho um Dragão que mora Comigo", "Sem Coração", "O Bom Comportamento" e "Quinze"



O dia de domingo (02) foi o último dia do X Panorama Internacional Coisa de Cinema na cidade de Cachoeira, onde o festival é realizado em parceria com o Cineclube Mário Gusmão, que funciona atrelado ao curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Os filmes começaram a ser exibidos com uma sessão da Mostra Competitiva Nacional às 14h, com a apresentação de cinco filmes em curta-metragem. Os primeiros foram dois filmes cearenses: “O Completo Estranho” e “Tenho um Dragão que Mora Comigo”, dirigidos, respectivamente, por Leonardo Mouramateus e Wislan Esmeraldo. Depois, foi a vez de um filme pernambucano, estado que marcou forte presença no evento, com o filme “Sem Coração”, de Nara Normande e Tião. O quarto filme foi o paulista “O Bom Comportamento”, de Eva Randolph. Para finalizar a sessão, o filme mineiro “Quinze”, de Maurílio Martins.
“O Completo Estranho” gira em torno da relação de dois jovens que se conhecem em uma festa. Ela foi até o local com o namorado para “salvar” uma amiga em apuros. Ele é o anfitrião. No meio de um apagão, os personagens, que, supostamente, nunca haviam se visto, acabam se encontrando. Eles continuam sem se ver, mas começam a se ouvir e a conversar sobre os mais diversos temas. O maior trunfo do filme é a forma como os contornos humanos são explorados pela falta da luz (devido ao apagão). É essa falta de luz, e a precisão dos contornos, que lembram que os seres humanos são feitos de sua índole, de seu interior, de seu espírito, e não de sua carne, de sua cor, de sua imagem exterior. Os personagens, assim, sem nenhum preconceito começam a conversar. Segundo ele, ele já havia a visto na festa, mas ela não tem nem ideia de como ele se parece fisicamente. O problema são diálogos muito pontais, marcados e teatrais demais. O curta é feito, sem dúvida, pela poética da imagem e dos contornos, mas é levado pelos diálogos de forma lenta e sem graça.

Filme: "O Completo Estranho", de Leonardo Mouramateus
Uma mulher arruma sua casa, prepara um bolo e espera seu amante chegar. Em “Tenho um Dragão que mora Comigo”, os personagens são muito normais, suas atitudes muito cotidianas, a casa onde se encontram muito realista, as atitudes e diálogos muito naturais. Como muitos curtas, é um filme quase documental, sem pudor e sem medo de mostrar a realidade que assola os personagens. De forma simples, o curta consiste em apresentar uma mulher que espera por alguém. Em nenhum momento nos é revelado quem é essa pessoa até que o homem chegue. E mais, temos a certeza de que essa espera é longa e voltará a ser tão longa quanto. A fotografia e a direção de arte do filme são precisas e as cores que vemos em cada cena dialogam de uma forma ou outra sempre. O dragão do título pode ser visto como esse amor grande e cheio de calor que a mulher possui em seu peito. Ou também pode ser uma referência ao vazio imenso que a personagem sente quando está longe de seu amado. Quem sabe?

Filme: "Tenho um Drgão que mora Comigo", de Wislan Esmeraldo
“Sem Coração” foi, sem dúvida, um dos curtas mais interessantes apresentados durante o Panorama. A história acompanha um jovem que vai visitar os tios e o primo em uma praia nordestina. Lá, o menino, de aproximadamente treze ou quatorze anos, conhece outros meninos que o apresentam à Sem Coração, uma garota da mesma idade com quem os meninos se relacionam sexualmente. Para começar, o filme já impressiona pela interpretação e maturidade dos intérpretes das crianças que levam toda essa descoberta sexual de forma muito realista. É a impressão do que eles mesmos vivenciavam quando o curta foi realizado. Ainda nesse contexto, chama a atenção a construção da personagem de Sem Coração. A metáfora tem a ver com uma cicatriz que a garota tem no peito, mas também diz respeito à forma como ela se relaciona com todos os meninos, sem se apegar a nenhum deles. Qualquer semelhança não é mera coincidência, segundo Nara Normande, a personagem é baseada em um pessoal real. A fotografia do filme é imponente e utiliza o sol e as praias de forma muito inteligente.

Filme: "Sem Coração", de Nara Normande e Tião
Isolados, adolescentes se divertem em uma colônia de férias em “O Bom Comportamento”. Laura, porém, está totalmente sozinha no local depois que seu único amigo se vê obrigado a ir embora. Com o tempo, ela se aproxima de um belo garoto e os dois voltam ao tema das descobertas sexuais da adolescência. Durante o filme, uma colega de quarto de Laura conta a história de uma jovem grávida que morreu no acampamento e assombra a cachoeira local. Com o passar do curta, é difícil compreender sobre o que a história está tentando falar: sobre Laura ou sobre a jovem que morreu há anos? Podemos até levantar a hipótese de que Laura é a própria jovem que veio levar o belo rapaz. Mas isso não condiz com a personagem contada pela colega de Laura: na “lenda”, a morta vem para buscar crianças, não qualquer um. A dúvida sobre quem é o real protagonista, paira no ar mesmo após o termino do filme. Assim sendo, o filme cria uma confusão que acaba tomando conta do espectador, restando um bom trabalho de decupagem, direção fotográfica e de interpretações para o filme valer a pena.

Filme: "O Bom Comportamento", de Eva Randolph
O filme “Quinze”, surpreendentemente, relata, mesmo, o aniversário de quinze anos de uma jovem. Mas isso é apenas um pano de fundo para apresentar a relação de uma mãe e uma filha que não sabem até que ponto se conhecem. Não que o filme seja um tramalhão sobre as dificuldades de se ser mãe ou de se ser filha. Muito pelo contrário, é um retrato real e imprevisível dessa relação. O grande trunfo dessa produção, além da veracidade da história (o que inclui pequenas discussões, revelações interessantes, contas a serem pagas, muita risada e um pouco de choro emocionado) são as interpretações de Karine Teles e Malu Ramos (mãe e filha, respectivamente). Mais inacreditável ainda, é ver que as duas sustentam planos extremamente longos com diálogos cotidianos e cheios de surpresas. Além disso tudo, existe uma relação homossexual muito tranquila e apaixonada entre Raquel (a mãe) e outra mulher, o que confere ao curta um tom mais moderno e de militância contra o preconceito e pela aceitação da diversidade.

Filme: "Quinze, de Maurílio Martins

De uma forma ou outra, todos os filmes dessa sessão fazem referências aos encontros e desencontros da vida humana. “O Completo Estranho” aborda o desencontro da protagonista e do namorado, o que culmina no encontro com o anfitrião da festa. Em “Tenho um Dragão que mora Comigo” a protagonista espera ansiosa o encontro entre ela e o amado que está chegando, após tanto tempo de saudade guardada. Em “Sem Coração”, há o encontro do protagonista com a família do tio, com os garotos de mesma idade, com a menina Sem Coração e, por que não, com os desejos carnais que afloram a cada dia. “O Bom Comportamento” é o encontro entre a jovem excluída e o moço bonito, mas também é o encontro com a sexualidade (sempre presente durante a adolescência) e entre os mundos do real (representado pelo acampamento) e do “imaginário”, representado pela cachoeira onde, supostamente, está a moça que morreu. Em “Quinze”, por fim, talvez esteja a maior dificuldade de descobrir onde estão os encontros e desencontros, mas basta ter um pouco de imaginação para ver o encontro de uma mãe e sua filha, o encontro entre duas mulheres e o encontro de todas as diversidades, das aceitações e das tolerâncias. Cinco filmes retratando um dos maiores fatos da vida humana na terra: a vida é feita de encontros e desencontros. 
Especial Premiação: Antes que os vencedores da premiação sejam anunciados, aqui estão os meus preferidos. Levando em consideração os 17 filmes da Competitiva Nacional apresentados na cidade de Cachoeira, mais os longas "Branco Sai, Preto Fica" e "Homem Comum" e os curtas "La Llamada" e "E", assistidos recentemente no CachoeiraDoc, também em Cachoeira) e os sete filmes (seis curtas e um longa) da Competitiva Baiana (mais o curta "No Seu Giro, Corpo Leve", assistido anteriormente). Devido ao numero de prêmios distribuídos, decidi colocar dois vencedores por categoria.
Melhor Filme Longa-metragem Nacional: "A História da Eternidade", de Camilo Cavalcanti, e "Castanha", de Davi Pretto.
Melhor Filme Curta-metragem Nacional: "Carranca", de Marcelo Matos e Wallace Oliveira, e "Parque Soviético", de Karen Black.
Melhor Filme Baiano: "Menino da Gamboa", de Pedro Perazzo e Rodrigo Luna, e "O Velho Rei", de Ceci Alves.
EM BREVE, os vencedores oficiais pelos júris selecionados pelo X Panorama Internacional Coisa de Cinema!

Após a apresentação dos curtas, houve uma conversa com participantes das produções mediada pela professora Cyntia Nogueira (de costas), responsável pelo Cineclube Mário Gusmão (da esquerda para a direita): Nara Normande, de "Sem Coração", Maurílio Martins, de "Quinze", Samuel Brasileiro, de "O Completo Estranho", Wislan Esmeraldo, de "Tenho um Dragão que mora Comigo", e Eva Randolph, de "O Bom Comportamento".
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PRODUT@S DOS MEIOS

Especial X Panorama Internacional Coisa de Cinema. Filmes: "Estátua!", "Carranca" e "Ventos de Agosto"



O penúltimo dia do X Panorama Internacional Coisa de Cinema na cidade de Cachoeira, sábado (1), foi figurado por dois curtas-metragem e um longa-metragem da Mostra Competitiva Nacional. Os curtas foram o carioca “Estátua!”, de Gabriela Amaral, e o baiano “Carranca”, de Marcelo Matos e Wallace Nogueira, o longa, foi o pernambucano “Ventos de Agosto”, de Gabriel Mascaro. A história de “Estátua!” gira em torno de uma jovem grávida que é contratada para cuidar de uma menina cuja relação com a mãe é uma verdadeira catástrofe. “Carranca” trata sobre uma garotinha que vive em meio a homens que fabricam as esculturas chamadas “carrancas” e sobre a crença de um menino do rio. “Ventos de Agosto” é a história de um jovem alagoano, Jeison, e sua relação com uma jovem e sobre as relações destes com os demais habitantes do vilarejo onde moram e com o próprio vilarejo.
Assim que a menina Joana aparece pela primeira vez em “Estátua!”, vê-se que sua relação com a mãe é catastrófica. Joana é uma menina de 9 anos que não possui nenhum atributo físico que, a julgar pelo perfil da mãe, seriam muito bem vindos. Assim que Isabel fica sozinha com a menina, coisas estranhas começam a acontecer. São vinte e quatro minutos de pura tensão e suspense. A fotografia do filme é assombrosa e a direção de arte casa totalmente com a intenção de apresentar o apartamento onde se passa toda a história como um lugar perigoso e carregado de uma energia negativa inigualável. Para completar o clima, Isabel não sabe se tudo o que vê é real ou não. O que está acontecendo? Isabel está enfrentando alguma espécie de trauma pré-parto? Joana é um monstro como parece? Ou é Isabel quem não sabe enxergar a verdade por trás de suas loucuras? Quem está tomado pela insanidade? Isabel? Joana? Ou o Espectador?

Filme: "Estátua!", de Gabriela Amaral
Segundo alguns historiadores, as carrancas surgiram como forma de os comerciantes que flutuavam sobre o Rio São Francisco para chamar a atenção do povo para seus barcos. Mais tarde, o objeto (já usado por fenícios, assírios, egípcios, gregos e romanos) ganhou um significado espiritual de proteção do caboclo d’agua, uma entidade que assombra os rios. O filme se desenrola do ponto de vista de uma garotinha que vive no meio da fabricação das carrancas (todas com o tamanho, ou maiores, que sua própria cabeça), e que acredita ter encontrado o tal caboclo. Curiosamente, o menino encontrado por ela pegará a carranca e não demonstrará nenhum medo. O filme “Carranca” é como os próprios objetos do título: um filme simples e sutil. Por trás das imagens e da história contada sob uma visão infantil, “Carranca” escancara a importância e a beleza de objetos tão imponentes como as carrancas, tanto comercial, quanto espiritualmente. Por trás de ambas as carrancas (o filme e o objeto), esconde-se uma história belíssima de verdade e imaginação. Encontram-se mundos ainda pouco explorados e compreendidos.

Filme: "Carranca", de Marcelo Matos e Wallace Nogueira
Em “Ventos de Agosto”, Jeison e Shirley vivem em uma pequena vila de pescadores sem quase nenhum contato com o resto do mundo. A vida é tranquila e as pessoas passam o dia cuidando de seus trabalhos e de suas casas. Em agosto, a maré tende a subir e, além do comum, Jeison precisa proteger a casa onde vive com o pai. Além disso, um captor de sons chegará na aldeia para fazer alguns trabalhos e um cadáver encontrado por Jeison mudará o cotidiano daquele lugar. O filme inicia com uma sequência de cenas enorme sem nenhuma fala (o que se repetirá ao longo do filme), e encanta visualmente desde o princípio. A fotografia se mostra um dos maiores trunfos do longa, explorando a luz natural e os efeitos da mesma sobre o mar, a praia e as matas (sobretudo, de cocais). Outro elemento forte, nesse contexto, é a sonorização ambiental magnífica, que revela o som de cada gesto e passo dos personagens. A história, todavia, é um pouco cansativa, repetitiva e com diálogos limitados, apesar de alguns serem bem engraçados. Assim sendo, é constante esperar por uma nova sequência onde apenas as imagens impressionantes tomem conta da tela.

Filme: "Ventos de Agosto", de Gabriel Mascaro
Talvez o que deixe a imagem ainda mais bela e o enredo um pouco mais aceitável, sejam as interpretações maravilhosas de Geová Manoel dos Santos e, principalmente, de Dandara de Morais, respectivamente, Jeison e Shirley. Geová é muito natural e dá conta do fardo de apresentar um jovem confuso perante a sociedade em que vive e os desejos que alimenta. Dandara conquista a todos com seus olhos e sua sensualidade deslumbrante, além de possuir uma presença corporal inimaginável. Algumas cenas do casal são que dão o tom para que o filme seja assistido até o final sem nenhum arrependimento. Nada mal para uma atriz de Malhação que tinha seu trabalho julgado como ruim e para um “não ator”. Geová dos Santos, bem como todos os demais integrantes do filme (salvo Shirley e o captador de som, interpretado por Gabriel Mascaro) são moradores do local, o que confere mais realidade e simplicidade ao filme.
“Estátua!”, “Carranca” e “Ventos de Agosto” são filmes que apresentam diferentes culturas e exploram a influência do meio sobre o ser humano. No primeiro, a cidade, a urbanização, a “concretização” (pelo próprio concreto, como material de alvenaria) de tudo e o enclausuramento (no apartamento apertado e muito limitado) provocado por esses “avanços” expõe a personagem principal a uma desconfiança e a um medo que nem ela sabe se é real ou não. No segundo, a convivência com os mais velhos e com os objetos que dão nome ao filme faz com que a menina esteja propensa a acreditar piamente na existência de uma entidade perigosa que habita os rios, fazendo com que a menina deposite sua confiança nas tais carrancas, como protetoras. No último, a monotonia da pequena vila será agitada pela chegada de coisas novas (tanto Shirley quanto o captador de som), e tudo será intensificado quando o corpo for achado e Jeison começar a cuidar dele como se fosse algo muito importante (e talvez seja). São filmes que optam pela simplicidade, sem fugir de seus propósitos. Sem dúvida, não decepcionam.


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terça-feira, 4 de novembro de 2014

YIN YANG

Especial X Panorama Internacional Coisa de Cinema. Filmes: "Parque Soviético" e "A Doce Flauta da Liberdade"



O final da tarde sábado no X Panorama Internacional Coisa de Cinema iniciou, em Cachoeira, com a apresentação de um curta-metragem e um longa, respectivamente, o primeiro, parte da Competitiva Nacional, o segundo, da Competitiva Baiana. O curta, dirigido por Karen Black, foi “Parque Soviético”, uma história que mistura o relacionamento conturbado de um casal em crise com as lembranças de um tempo onde o mundo vivia entre dezenas de dualidades que mudariam a história da humanidade. O longa, de George Neri, “A Doce Flauta da Liberdade” é um filme metalinguístico que mistura as referências cinematográficas com a importância de se falar sobre a liberdade de expressão, independente da região, da cultura ou da área de que se fala.
“Parque Soviético” foi filmado no parque em memória dos soldados do Exército Vermelho que tombaram na Segunda Guerra Mundial. É nesse parque que um homem e uma mulher se encontram e começam a discutir seu relacionamento. E o que isso tem a ver com uma relação de um casal? Tudo! Segundo a própria Karen, “amor é guerra fria”. Amor é a luta entre dois lados. Amor é a disputa ideológica de dois seres humanos. Nesse caso, amor é o jogo entre um homem e uma mulher. Amor passa tanto pelas dualidades da vida quanto uma guerra. Enquanto ele defende o capitalismo, ela opta pelo socialismo. Enquanto ele é um homem, ela é uma mulher, assim como, durante a Guerra Fria, enquanto de um lado estavam os EUA e seus aliados e de outro estavam a URSS e seus aliados. Além da história, o filme em preto e branco possui uma fotografia incrível que se preocupa sempre em mostrar um pouco dos monumentos e um pouco do casal e uma sonoplastia aparentemente natural que, ainda segundo a diretora, foi feita de forma absolutamente artificial.

Filme: "Parque Soviético", de Karen Black
“A Doce Flauta da Liberdade” é uma alegoria metalinguística que tem por objetivo criticar a censura. A história se passa na cidade fictícia de Liberdade, no interior da Bahia, onde um homem tem como função recortar partes obscenas, indecentes, com diálogos que possuam palavrões e qualquer referência perigosa que possa afastar o povo da religiosidade dos mais diversos filmes. Em um dado momento, a repressão chega ao limite e jovens se revoltam. Um deles chega a usar de artifícios místicos para prejudicar o homem em questão. Inicialmente, o filme é uma confusão de imagens, do real e do imaginário, uma mistura de diversas cenas e histórias, um recorte muito diferenciado e, por vezes, estranho. É preciso, assim, tentar entender a loucura contida na proposta do longa e tentar fazer parte dele para só então, tentar compreendê-lo. E, ainda assim, não há garantia de que o filme funcione.
George recebeu um roteiro com uma história que ele considerou meio quadrada sobre um homem que picotava negativos de filmes e, devido a uma revolta, acaba sofrendo consequências um tanto drásticas. George não gostava da forma como o roteiro era proposto, então, inseriu a improvisação, a aparição de parte da produção (o que tornou o filme ainda mais metalinguístico do que apenas inserir diálogos e cenas de filmes muito conhecidos no cinema) e artifícios estilísticos como um pano sobre a lente da câmera para causar um efeito diferenciado. A equipe do filme é o próprio elenco, assim, algumas cenas parecem ensaios, outras parecem making off. Uma proposta arriscada que, aliada a metáforas exageradas e algumas críticas exploradas de forma excessiva, corroem o filme em alguns aspectos. Algumas ideias, como a necessidade do fim da repressão e a o cinema como expressão necessária, acabam se perdendo e o sentido do filme se torna um tanto ambíguo. Pontas ficam soltas e a sensação é a de que muito mais podia ser falado.

Filme: "A Flauta Doce da Liberdade", de George Neri
 “Parque Soviético” e “A Doce Flauta da Liberdade” possuem em comum a apresentação das dualidades e de como elas afetam a vida dos seres humanos. Enquanto no primeiro a dualidade se dá entre as ideologias e os gêneros, no segundo, ela se apresenta pela liberdade ou pela falta dela, pela repressão ou pela tolerância. “Amor é guerra fria”, independente de com quem se relacione, o amor será uma disputa eterna entre duas pessoas e seus egos, e suas ideias, e seus desejos, e seus sonhos. Assim como a imposição de ideologias será uma guerra eterna entre os que defendem a permanência de um estilo de vida e os que buscam por uma vida nova. E, talvez, essas dualidades, que dizem respeito ao amor e ao convívio social, sejam as que mais afetam o ser humano, em qualquer lugar do mundo, em qualquer espaço de tempo.

Conversas com os diretores Karen Black, de "Parque Soviético", e George Neri, de "A Doce Flauta da Liberdade", após a apresentação dos filmes. Foto: Wesley Proença.
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