domingo, 28 de setembro de 2014

47º FESTIVAL DE BRASÍLIA

Na noite do dia 23 de setembro foram anunciados os vencedores do 47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Concorrendo pelo Troféu Candango, estavam seis longas e doze curtas-metragens, vencendo “Branco Sai. Preto Fica” e “Sem Coração”, respectivamente. O evento homenageou o cineasta Eduardo Coutinho, morto no início do ano, apresentando a cópia restaurada do filme “Cabra marcado para morrer”.




Nascido pela união dos que falavam de cinema na UnB e dos estudantes (BAHIA, Berê, 30 Anos de cinema e festival), o Festival de Brasília de Cinema Brasileiro é o mais antigo e um dos mais respeitados festivais nacionais. Segundo o professor de audiovisual da UnB, Marcos Mendes, o curso, criado em 1964 por Paulo Emílio Sales Gomes, que reunia o crítico Jean-Claude Bernardet e o cineasta Nelson Pereira dos Santos, tinha como objetivo “pensar o cinema”. Mesmo que o curso tenha perdido seus professores e tenha se reestabelecido apenas em 1971, Paulo Emilio organizou a Primeira Semana do Cinema Brasileiro com a finalidade de levar os filmes brasileiros para além do clube dos cinéfilos. O evento contou com participações dos mais variados tipos e apresentou filmes como “A Falecida”, de Leo Hirszman, e “O desafio”, de Paulo Cezar Saraceni.
Em 1967, o evento ganhou o título de Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, tornando-se um evento oficial da Secretaria da Cultura do Distrito Federal. No ano seguinte, porém, o Ato Institucional 5 suspendia várias garantias constitucionais e aumentava a censura, o que ia contra a liberdade de criação e expressão cinematográfica. Assim, o festival era prejudicado pela Ditadura Militar. Ainda assim, mesmo que picotados para se enquadrarem nos padrões impostos pelo regime, os filmes transmitiam os valores opostos aos da ditadura, tornando o festival um ato político, segundo Marcos Mendes. Devido aos absurdos que ocorreram na época pelas intervenções da censura do estado, o festival deixou de ser realizado durante três anos, retornando em 1976.



De lá para cá, aos poucos, o Festival foi se desvencilhando das medidas impostas pela ditadura. Como todas as artes no Brasil, o cinema driblava o regime e apresentava sua opinião de forma sutil, mas convincente. E talvez uma das maiores provas de que o festival está pronto para se dizer livre de qualquer influência exterior à cinematográfica seja ter premiado o longa “Branco Sai. Preto Fica” como melhor filme do ano. Isso, por que o filme de Adirley Queirós simplesmente detona com a cidade Brasília, um dos maiores símbolos nacionalistas do Brasil. O filme foi feito na Ceilândia (cidade satélite da capital) e delata as dificuldades e verdades vividas pelos moradores do entorno de Brasília com uma dose essencial de ficção, que conta, inclusive, com uma bomba que está pronta para destruir a cidade projetada por Niemeyer no governo de Kubistchek. Segundo o próprio Queirós, que tem outros cinco filmes gravados na cidade, sua intenção máxima, desde o começo das gravações, era destruir Brasília. Em curta-metragem, o destaque foi para “Sem Coração”, de Nara Normande e Tião, filme vencedor da categoria de melhor filme em curta-metragem pela mostra competitiva.
Abaixo, confira os vencedores em todas as categorias do evento que distribuiu R$ 625 mil em prêmios (vale lembrar que os diretores dos seis filmes que concorriam na categoria de melhor filme longa-metragem assinaram, antes de o vencedor ser anunciado, uma declaração dividindo o prêmio de R$ 250 mil):

Cena do filme "Branco Sai. Preto Fica", de Adirley Queirós
Mostra Competitiva de Filmes de Longa-metragem
Melhor filme – “Branco sai. Preto fica”, de Adirley Queirós
Melhor filme pelo júri popular – “Sem pena”, de Eugenio Puppo
Melhor direção - Marcelo Pedroso, por “Brasil S/A”
Melhor ator – Marquim do Tropa, por “Branco sai. Preto fica”
Melhor atriz  – Dandara de Morais, por “Ventos de agosto”
Melhor ator coadjuvante – Renato Novais de Oliveira, por “Ela volta na quinta”
Melhor atriz coadjuvante – Élida Silpe, por “Ela volta na quinta”
Melhor roteiro – Marcelo Pedroso, por “Brasil S/A”
Melhor fotografia – Gabriel Mascaro, por “Ventos de agosto”
Melhor direção de arte – Denise Vieira, por “Branco sai. Preto fica”
Melhor trilha sonora – Mateus Alves, por “Brasil S/A”
Melhor som – Pablo Lamar, por “Brasil S/A”
Melhor montagem – Daniel Bandeira, por “Brasil S/A”

Mostra Competitiva de Filmes de Curta-metragem
Melhor filme – “Sem coração”, de Nara Normande e Tião
Melhor filme pelo júri popular – "Crônicas de uma cidade inventada", de Luísa Caetano
Melhor direção - Nara Normande e Tião, por "Sem coração"
Melhor ator - Zé Dias, por "Geru"

Cena do filme "Sem Coração", de Nara Nromande e Tião
Troféu Câmara Legislativa do DF - Mostra Brasília
Melhor longa-metragem – “Branco sai. Preto fica”, de Adirley Queirós
Melhor curta-metragem – “Crônicas de uma cidade inventada”, de Luísa Caetano
Melhor direção – André Luiz Oliveira, por “Zirig Dum Brasília – A Arte e o Sonho de Renato Matos”
Melhor ator – Marquim do Tropa, por “Branco sai. Preto fica”
Melhor atriz – Klarah Lobato, por “Querido Capricórnio”
Melhor roteiro – Fáuston da Silva, por “Ácido Acético”
Melhor fotografia – Dani Azul, por “Meio Fio”
Melhor montagem – Guille Martins, por “Branco sai. Preto fica”
Melhor direção de arte – Luiz Fernando Skopein, por “À Mão Armada”
Melhor edição de som – Guille Martins e Camila Machado, por “Branco sai. Preto fica”
Melhor captação de som direto – Francisco Craesmeyer, por “Branco sai. Preto fica”
Melhor trilha sonora – Renato Matos, por “Zirig Dum Brasília – A Arte e o Sonho de Renato Matos”
Melhor longa-metragem pelo júri popular – “Zirig Dum Brasília – A Arte e o Sonho de Renato Matos, de André Luiz Oliveira”
Melhor curta-metragem pelo júri popular – “Ácido Acético”, de Fáuston da Silva

Prêmio Marco Antônio Guimarães
“Zirig Dum Brasília – A Arte e o Sonho de Renato Matos”, de André Luiz Oliveira

Prêmio Canal Brasil
“Sem coração”, de Nara Normande e Tião

Prêmio Exibição TV Brasil
“Branco sai. Preto fica”, de Adirley Queirós

Prêmio ABRACCINE
Melhor filme de curta-metragem: “Estátua!”, de Gabriela Amaral Almeida
Melhor filme de longa-metragem: “Branco sai. Preto fica”, de Adirley Queirós

Prêmio Saruê
“Branco sai. Preto fica”, de Adirley Queirós

Prêmio Vagalume
Melhor filme de curta-metragem: “Crônicas de uma cidade inventada”, de Luísa Caetano
Melhor filme de longa-metragem: “Ventos de agosto”, de Gabriel Mascaro

Prêmio Conterrâneos 
“Zirig Dum Brasília” – A Arte e o Sonho de Renato Matos, de André Luiz Oliveira

O documento histórico que dividiu o prêmio de melhor filme. As justificativas foram as mais simples: os seis filmes são fantásticos e a competitividade pela recompensa de R$ 250 mil é desnecessária.

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terça-feira, 16 de setembro de 2014

REPRESENTANTE BRASILEIRO NO OSCAR 2015

Confira os 17 candidatos considerados aptos para representar o Brasil como candidato como melhor filme estrangeiro no Oscar 2014, e o escolhido pela comissão desse ano: HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO. Em breve a crítica do filme estará no blog!



Desde 1957, o Prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos oferece um prêmio anual a filmes estrangeiros (aqueles que não são falados em língua inglesa). Hoje em dia, para ser indicado ao prêmio, o filme precisa passar por uma avaliação dentro de seu país. Qualquer filme que respeite o limite de data de lançamento estipulado pela Academia pode se inscrever, depois, no Brasil, um grupo escolhido pelo Ministério da Cultura avalia os filmes que estão pleiteando a vaga e escolhe o representante do país. Esse ano, a comissão brasileira é formada por Jeferson De, diretor, produtor e roteirista, por Luis Erlanger, jornalista, por Sylvia Regina Bahiense Naves, coordenadora-geral de Desenvolvimento Sustentável do Audiovisual da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, Orlando de Salles Senna, presidente do conselho da Televisão América Latina, e George Torquato Firmeza, ministro do Departamento Cultural do Ministério das Relações Exteriores.
Dentre os temas dos 18 filmes selecionados para passarem por avaliação dessa comissão, estão homossexualidade, superação, solidão, sustentabilidade, música, reencontros, política, saudade, criminalidade, amizade, internet, sequestro, assassinato, exploração da natureza e resistência à Ditadura Militar no Brasil durante a década de 1970. Dentre os filmes, estão um documentário, duas animações (uma delas, a primeira animação em stop motion da América Latina) e uma biografia. Apesar de Carlinhos Brown e Sérgio Mendes terem figurado como indicados em melhor canção pela música “Real in Rio”, pelo filme “Rio” (2011), no Oscar 2012, o Brasil não é indicado na categoria de melhor filme estrangeiro desde 1999, quando Walter Salles levou seu “Central do Brasil”, para Hollywood, com Fernanda Montenegro (única atriz brasileira indicada na categoria feminina de interpretação na premiação). Nos últimos anos, o Brasil tentou a vaga com os seguintes filmes: “Salve Geral”, de Sérgio Rezende (2010), “Lula, o filho do Brasil”, de Fábio Barreto (2011), “Tropa de Elite 2: O Inimigo agora é Outro”, de José Padilha (2012), “O Palhaço”, de Selton Mello (2013) e “O Som ao Redor”, de Kleber Mendonça Filho (2014).
Abaixo, segue a lista dos filmes com a direção, o com e a sinopse. O filme escolhido foi HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO, em breve, a crítica do filme estará disponível no blog!

A Grande Vitória, de Stefano Capuzzi, com: Caio Castro, Sabrina Sato, Domingos Montagner, Tato Gabus Mendes, Moacyr Franco, Rosi Campos
Sinopse: Abandonado pelo pai, Max Trombini foi criado pela mãe e pelo avô, que morreu quando ele tinha 11 anos. Revoltado, passou a se envolver em confusões em sua cidade natal, Ubatuba (SP). Mas com o aprendizado de artes marciais, Max conseguiu se restabelecer emocionalmente e tornar-se um dos principais técnicos de judô do Brasil. Baseado em fatos reais.

A Oeste do Fim do Mundo, de Paulo Nascimento, com: Cesar Troncoso, Fernanda Moro e Nelson Diniz
Sinopse: Em um velho posto de gasolina perdido na antiga estrada transcontinental da Argentina, a solidão do introspectivo Leon só é quebrada por alguém querendo abastecer ou pelas visitas do sarcástico Silas, um motociclista com ares de hippie aposentado. O tempo passa devagar nas margens da velha estrada. Até o dia em que a enigmática e inesperada chegada de Ana transforma radicalmente o cotidiano de Leon e Silas.

Amazônia, de Thierry Ragobert, com: Lúcio Mauro Filho e Isabelle Drummond (vozes)
Sinopse: Castanha é um macaco-prego domesticado que sobrevive a um acidente de avião e se vê sozinho na Floresta Amazônica. O macaquinho precisa aprender a viver em liberdade, num novo mundo onde há animais de todos os tipos: onças, jacarés, cobras, antas, gaviões. Aos poucos, Castanha aprende a viver na floresta, fazendo novos amigos, em especial a macaquinha Gaia, sua companheira de espécie.

Dominguinhos, de Eduardo Nazarian, Joaquim Castro e Mariana Aydar, com: Gilberto Gil, Gal Costa, Elba Ramalho, Hermeto Paschoal e João Donato
Sinopse: O documentário trata da vida e obra de um dos maiores mestres da música brasileira, Dominguinhos, morto em julho de 2013 em decorrência de um câncer no pulmão. O filme intercala imagens de arquivo, passagens em shows e encontros musicais exclusivos de artistas com o "rei da sanfona".

Dominguinhos, de Eduardo Nazarian, Joaquim Castro e Mariana Aydar
Entre Nós, de Paulo Morelli, com: Carolina Dieckmann, Caio Blat, Paulo Vilhena, Júlio Andrade e Martha Nowill
Sinopse: Sete jovens amigos escritores viajam para uma casa de campo para celebrar a publicação do primeiro livro do grupo. Lá, eles escrevem cartas para serem abertas 10 anos depois. A viagem acaba em uma tragédia após a morte de um dos amigos. Mesmo assim, eles se reúnem 10 anos depois para lerem as cartas.

Exercício do Caos, de Frederico Machado, com: Auro Juriciê, Di Ramalho, Thalyta Sousa, Isabella Sousa, Thayná Sousa e Elza Gonçalves
Sinopse: Um pai soturno e autoritário vive com as três filhas adolescentes em uma antiga fazenda de mandioca no interior do Maranhão, afastada da povoação. A família compartilha a ausência da mãe - supostamente desaparecida - e lida com os ditames rigorosos de um estranho capataz que os explora enquanto espreita a inocência das meninas, divididas entre a ilusão da infância e a cruel realidade de suas vidas.

Getúlio, de João Jardim, com: Tony Ramos, Alexandre Borges e Drica Moraes
Sinopse: O jornalista Carlos Lacerda, principal inimigo político do presidente Getúlio Vargas, sofre um atentado na rua Toneleros, no Rio de Janeiro. Acusado por Lacerda de ser o mandante, Getúlio vive uma crise política sem precedentes.

HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO (filme escolhido pela comissão), de Daniel Ribeiro, com: Guilherme Lobo, Fabio Audi, Tess Amorim, Lúcia Romano, Eucir de Souza, Selma Egrei e Isabela Guasco
Sinopse: Leonardo é um adolescente cego e homossexual que tenta lidar com a superproteção da mãe e sua busca pela independência. O cotidiano do jovem muda com a chegada de Gabriel, que o ajuda a descobrir mais sobre si mesmo e sua sexualidade.

Hoje eu quero voltar sozinho, de: Daniel Ribeiro
Jogo de Xadrez, de Luís Antônio Pereira, com: Priscila Fantin, Tuca Andrada e Antonio Calloni
Sinopse: Mina está presa por fraudar a Previdência Social. Além de se defender das outras detentas, precisa escapar da vigilância do , de da penitenciária. O crime cometido por Mina envolveu um senador, que tenta de todas as formas impedir que sua participação venha à tona.

Minhocas, de Paolo Conti e Arthur Nunes, com: Daniel Boaventura, Yago Machado e Cadu Paschoal (vozes)
Sinopse: Júnior é uma jovem minhoca que não consegue fazer amigos, já que todos o consideram mimado pela mãe. Disposto a provar o contrário, ele desafia Nico, um dos que o provoca, para um desafio. Mas antes da disputa começar, Júnior e Nico são levados para a superfície, onde acabam encontrando o vilão Big Wig, um tatu bola que deseja transformar as minhocas em escravas.

Não pare na pista: a melhor história de Paulo Coelho, de Daniel Augusto, com: Júlio Andrade, Ravel Andrade, Lucci Ferreira, Letícia Colin, Fabíula Nascimento, Enrique Díaz, Paz Vega, Nancho Novo e Fabiana Guglielmett
Sinopse: Cinebiografia de Paulo Coelho, o filme se concentra em três momentos distintos da carreira do escritor: a juventude, nos anos 1960; a idade adulta, nos anos 1980; e a maturidade, em 2013. Usando como base depoimentos do próprio Paulo Coelho, a história perpassa os momentos mais marcantes da vida do autor, como a relação com as drogas e a religião, a sexualidade e a parceria com o músico Raul Seixas.

O Homem das Multidões, de Marcelo Gomes e Cao Guimarães, com: Sílvia Lourenço, Paulo André e Jean-Claude Bernardet
Sinopse: Belo Horizonte, Minas Gerais: Juvenal, condutor de trem do metrô, enfrenta a impossibilidade de estar só. Para se sentir melhor, ele se mistura na grande multidão da cidade. Margô, controladora de estação do metrô, não consegue se desprender das redes sociais, trocando o mundo real pelo mundo virtual.

O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra, com: Leandra Leal, Milhem Cortaz, Fabíula Nascimento e Juliano Cazarré
Sinopse: Com uma linha dramática de suspense, o filme leva a uma viagem aos recantos mais obscuros dos desejos, mentiras e perversidades de um triângulo amoroso a partir do misterioso sequestro de uma criança.

O menino e o mundo, de Alê Abreu, com: Alê Abreu, Lu Horta, Vinicius Garcia, Marco Aurélio Campos, Melissa Garcia, Cassius Romero, Nestor Chiesse, Patrícia Pichamone, Felipe Zilse e Alfredo Roll (vozes)
Sinopse: Sofrendo com a falta do pai, um menino deixa sua aldeia e descobre um mundo fantástico dominado por máquinas-bichos e estranhos seres. Uma inusitada animação com várias técnicas artísticas que retrata as questões do mundo moderno através do olhar de uma criança.

O menino no espelho, de Guilherme Fiúza Zenha, com: Lino Facioli, Mateus Solano e Regiane Alves
Sinopse: Que criança nunca sonhou um dia em ter um clone? Alguém que fizesse todas as tarefas chatas em seu lugar, como ir à escola mesmo sem vontade ou tomar uma dolorosa injeção no hospital. A transformação dessa fantasia em realidade é a trama central de "O Menino no Espelho", um filme que trata de valores universais como a infância, a amizade e a descoberta do amor.

Praia do Futuro, de Karim Aïnouz
Praia do Futuro, de Karim Aïnouz, com: Wagner Moura, Clemens Schick, Jesuíta Barbosa, Sabine Timóteo, Ingo Naujoks
Sinopse: O salva-vidas Donato resgata Konrad, piloto alemão de motovelocidade, de um afogamento na Praia do Futuro. Os dois se apaixonam e Donato vai embora, deixando para trás o irmão mais novo, Ayrton, e a família. Oito anos depois, Ayrton se aventura em Berlim na busca do irmão desaparecido, seu grande herói.

Serra Pelada, de Heitor Dhalia, com Juliano Cazarré, Julio Andrade, Matheus Nachtergale, Sophie Charlotte e Wagner Moura
Sinopse: Juliano e Joaquim deixam São Paulo em busca do sonho do ouro na região Amazônica. A vida no garimpo, com a obsessão pela riqueza e pelo poder, transforma por completo a relação e a vida dos dois.

Tatuagem, de Hilton Lacerda, com: Irandhir Santos, Jesuíta Barbosa, Rodrigo García, Sílvio Restiffe, Sylvia Prado e Ariclenes Barroso

Sinopse: Brasil, 1978. A ditadura militar, ainda atuante, mostra sinais de esgotamento. Em um teatro/cabaré, localizado na periferia entre duas cidades do Nordeste do Brasil, um grupo de artistas provoca o poder e a moral estabelecida com seus espetáculos e interferências públicas. Liderado por Clécio Wanderley, a trupe conhecida como Chão de Estrelas, juntamente com intelectuais e artistas, além de seu tradicional público de homossexuais, ensaiam resistência política a partir do deboche e da anarquia.

Tatuagem, de Hilton Lacerda
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domingo, 14 de setembro de 2014

AS VIDAS DOS HOMENS

Durante os dias 2 e 7 de setembro, a cidade de Cachoeira, Bahia, sediou o CachoeiraDoc, o Festival de Documentários da cidade. Com a apresentação de quase 40 produções, dentre mostras especiais e competitiva, o evento contou com a participação dos realizadores dos filmes, dos alunos e professores da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, da população cachoeirana e de profissionais de diversas áreas.



No final da tarde durante a noite de sexta-feira (05) foram apresentados o curta La Llamada e os longas Aprender a ler para ensinar seus camaradas e A vizinhança do tigre. Diferentes são os lugares apresentados por esses três filmes muito singulares, diferentes são, também, as realidades dos personagens que surgem durante as histórias, porém, todos possuem uma coisa em comum: o homem. Nesse contexto, La llamada revela um pouco o dia-a-dia de um cubano revolucionário de 87 anos muito convicto de seus ideias e pouco aberto para o novo; Aprender a ler para ensinar meus camaradas acompanha a visita de dois africanos a Bahia; A vizinhança do tigre, por fim, traz as histórias de jovens garotos moradores da periferia de Contagem.
La llamada, de Gustavo Vinagre, foi realizado em uma pequena vila em Cuba. Outrora, o local foi destinado a operários de uma fábrica que, hoje, está fechada. A fábrica deixou o local, os moradores continuam lá. Lázaro Escarze, um comerciante proprietário de uma pequena venda, foi o escolhido por Gustavo para representar esse povo. Segundo o próprio diretor, ele se propôs a filmar a primeira pessoa que encontrasse. Assim, Gustavo permaneceu 40 dias convivendo com o protagonista e, depois, em três dias, realizou o curta de 19 minutos em preto e branco. Lázaro passa o dia enclausurado pelas grades que protegem sua venda e, com a ajuda de um jovem, atende seus clientes por uma pequena abertura. Agora, Lázaro terá, pela primeira vez na vida, um telefone instalado em sua casa. Quais serão suas reações com essa nova tecnologia? Segundo Vinagre, Lázaro se destaca pela maneira natural com a qual toma suas decisões e pela capacidade de colocar uma ideologia acima de interesses pessoais, e as escolhas acerca do tal telefone não tomarão caminhos diferentes.  A fotografia lembra que Lázaro é um homem das antigas. As grades remetem ao enclausuro ao qual o próprio homem se propõe para poder viver em seu sistema muito próprio.


O título de Aprender a ler para ensinar meus camaradas, de João Guerra, é baseado em um “ditado” angolano que diz respeito às informações que um homem deveria coletar sobre o espaço a ser explorado para ensinar seus irmãos sobre aquilo. Guerra traz os dois músicos da angola para que, juntos de dezenas de nomes de grande importância cultural para o Brasil, possam explorar e aprender um pouco sobre a cultura baiana, baseada na cultura africana. Guerra inicia o longa em Luanda, apresentando a vida pessoal dos artistas e conhecendo suas famílias, ouvindo histórias e aprendendo um pouco sobre a África. Depois, a dupla vem ao Brasil e confere tudo o que o povo afro-brasileiro pôde construir a partir de suas origens. De forma intimista, o diretor recolheu depoimentos de pessoas na África e no Brasil, grandes nomes para a vida dos músicos e grandes personalidades da cultura brasileira, e os misturou com canções muito específicas sobre o tema apresentado.


Depois de Luanda, João Guerra vem a Cachoeira e explora suas belezas naturais e arquitetônicas, exaltando a cultura e a importância do município, que já foi um dos mais importantes economicamente para o país e ainda é uma das maiores referências nacionais em âmbito cultural e religioso. Na cidade, um dos personagens relembra o fato de os africanos terem a necessidade, quando chegaram ao Brasil, de se agruparem para sobreviverem às mudanças encontradas depois de serem obrigados a deixar sua terra de origem. Com tal agrupamento, segundo o personagem, foi que as culturas começaram a se fundir e formar a tão vasta e bela cultura negra no país. Aqui, os músicos angolanos encontram outras pessoas que vivem e amam a música e que estão empenhadas em não deixar os costumes criados pelos antepassados morrer. E talvez seja essa união de amantes da música e de sua história que componha a maior beleza desse filme. O problema de Guerra é que toda essa beleza é mostrada, por ele (não pelos personagens), de forma muito comercial, como se ele quisesse vender a Bahia como um paraíso perdido no leste brasileiro. A história por trás dos fatos é bela. A intenção dos personagens ao se engajaram no projeto é maravilhosa. A intenção de Guerra é, no mínimo, suspeita.
A vizinhança do tigre, de Affonso Uchoa, deixa de lado personagens mais velhos e que tenham uma carga história inimaginável, e dá espaço aos jovens da periferia: Juninho, Menor, Neguinho, Adilson e Eldo, que vivem entre a cruz e a espada ao serem obrigados a escolher caminhos muito distintos: o trabalho ou a diversão. A realidade de todos é muito simples e as famílias pouco ajudam na formação consciente desses jovens. Aos poucos conhecemos o cotidiano deles e concluímos que a máxima de suas vidas é estarem vivendo num sistema capitalista e individualista, onde nada importa que não seja o lucro. Para os jovens é ainda pior: o termômetro para saber o quanto se viveu, é o número de cicatrizes originadas por tiros pelos quais se foi atingido.


Há uma grande possibilidade de se assistir a esse filme e recordar um pouco Cidade de Deus e Cidade dos Homens, ambos retratos de jovens que vivem em favelas do Rio de Janeiro. Aqui, entretanto, Uchoa torna tudo mais particular à medida que não se importa em mostrar muitas histórias ou outros personagens além dos citados anteriormente. A forma como o diretor conta essas histórias chega a parecer uma ficção muito bem inventada, mas os ângulos escolhidos por ele e a forma como mostra o espaço em que os jovens vivem nos lembra de que tudo aquilo é, infelizmente, muito real. Apesar de a montagem do filme ser um pouco lenta, fazendo-o se tornar cansativo em alguns momentos, a fotografia muito realista é um deleite para os olhos do espectador.

Lázaro, de La llamada, é o retrato de um povo que já sofreu muito e aprendeu com toda sua história, mas que tem certa resistência em abandonar o passado. Aprender a ler, apesar de comercial, é uma troca mútua: Guerra apresenta a cultura africana no início do filme e, depois, é apresentada aos angolanos a cultura brasileira. O tigre do título de Vizinhança do tigre é, claramente, uma referência a tudo o que os jovens tem em seu interior, a vizinhança, portanto, é tudo o que está em volta deles. E se Gustavo Vinagre é capaz de fazer o público compreender que Lázaro é esse retrato do homem idoso convicto em tudo o que fez e faz, se Guerra é capaz de fazer com que o espectador, assim como seus personagens, aprendam um pouco sobre as culturas tão significativas vistas em seu filme, e se Uchoa é capaz de convencer o público de que o sistema ao qual os garotos estão inseridos é errado e ultrapassado, então, ao menos para o espectador, esses filmes valem a pena.

Após a apresentação de La Lamada e Aprender a ler para ensinar meus camaradas, Gustavo Vinagre e João Guerra falaram um pouco sobre os filmes e responderam perguntas do público. Depois, um grupo da velha guarda do samba começou uma apresentação memorável no Cine Theatro Cachoeirano e fechou os trabalhos na praça 25 de Junho.
(Fotos de Léo Conceição)


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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O ATO DE (R)EXISTIR

Durante os dias 2 e 7 de setembro, a cidade de Cachoeira, Bahia, sediou o CachoeiraDoc, o Festival de Documentários da cidade. Com a apresentação de quase 40 produções, dentre mostras especiais e competitiva, o evento contou com a participação dos realizadores dos filmes, dos alunos e professores da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, da população cachoeirana e de profissionais de diversas áreas.



O Festival iniciou na noite de terça (02) em grande estilo com a apresentação do longa documentário de Eduardo Coutinho, “Cabra Marcado para Morrer” (1984). O filme relata a história de um homem que lutava por seus direitos e de todos com quem convivia e acabou sendo brutalmente assassinado. A origem do documentário é a tentativa de Coutinho em filmar uma ficção sobre a luta do líder camponês João Pedro Teixeira. Interrompido pela ditadura em 1964, Coutinho retornou 20 anos depois e fez o documentário lembrando das filmagens e realidades da época e contrapondo-as com a vida da esposa do camponês, Elizabeth Teixeira, que se tornou ativista pela causa.
O tempo foi cruel com essa mulher forte e esperançosa que vemos na tela: Elizabeth foi obrigada a deixar os filhos para trás e ser testemunha em dezenas de processos abertos pelas revoltas camponesas e pela realização do filme. Além dela, outras pessoas que participaram das filmagens também relatam suas lembranças e histórias. De forma intimista, Coutinho adentra a vida pessoal de cada um desses personagens – nos quais estão incluídos alguns dos 12 filhos de João e Elizabeth - e traz revelações inusitadas. O cineasta, porém, não esquece de denunciar a Ditadura trazendo para a tela declarações do governo que diziam que o filme que estava sendo filmado por ele era uma forma de reunir revoltosos e estimular a desordem no país.
A sessão sobre a família Teixeira continuou no dia seguinte com a apresentação do filme “A Família de Elizabeth Teixeira” (2014). Trinta anos após a realização do primeiro filme, Elizabeth é uma idosa de 87 anos com alguns de seus filhos espalhados pelo Brasil e outros perdidos há muito tempo. Nesse longa, Coutinho opta por mostrar a vida dos filhos da matriarca: vai do sudeste ao nordeste revelando as diferentes vidas que a prole de um dos maiores líderes da reforma agrária levam. Assim, o diretor volta a revelar histórias cada vez mais intimistas e curiosas. Cada filho de Elizabeth lembra de alguma coisa muito diferente, cada um passou por experiências inusitadas devido à perseguição sofrida pela família. Para finalizar, Coutinho ainda conta com a surpresa de saber que uma das netas do casal se tornou professora de história e trabalha com a restauração e recuperação da memória das lutas de João Pedro e Elizabeth Teixeira.

Elizabeth Teixeira e os filhos logo após a morte do marido.
O diretor faz uma ligação entre o passado (décadas de 1964 e 1984, quando tentou gravar a ficção e quando gravou o primeiro documentário, respectivamente) e os dias de hoje (2013). E nessa tentativa de comparar e denunciar, Coutinho exagera ao adentrar no mais profundo íntimo de seus personagens. Não que isso o torne apelativo, mas é exagerado. No final das contas, o que o cineasta faz é revelar o Brasil de forma nua e crua, sem pudor em mostrar os sofrimentos e as consequências advindas do período da ditadura. Por vezes, desrespeitando os limites do que pode ser público e do que, preferencialmente, deveria permanecer em âmbito privado. Para concluir essa denúncia com o filme apresentado no segundo dia do evento – que, na realidade, é um extra do DVD do filme de 1984 - o documentarista acaba trazendo toda a diversidade brasileira em um filme que trata apenas do povo brasileiro.
Cabra marcado para morrer fez parte da Mostra Resistência apresentada pelo festival. No sábado (06), os curtas Manhã cinzenta e África 50 e o média Primeiro caso, segundo caso fecharam a mostra que tinha como objetivo trazer filmes que contém como temática a resistência frente a repressão. Cada um deles foi filmado em um local diferente do mundo, mas todos acabaram sendo perseguidos pelos governos vigentes e até proibidos, sendo vistos como filmes subversivos para suas épocas. O mesmo, como citado acima, ocorreu com Cabra marcado para morrer. Manhã cinzenta também tem como pano de fundo a ditadura no Brasil; África 50 mostra uma África na década de 1950 explorada pelo protecionismo francês; e Primeiro caso, segundo caso foi filmado durante o processo que culminou na queda da monarquia islâmica e na ascensão da república no Irã.
De Olney São Paulo, Manhã cinzenta teve seus negativos confiscados pela ditadura em 1969. O curta mistura realidade e ficção para mostrar os terrores feitos pelos políticos da época. Mas Olney não mostra apenas o terror, ovaciona aqueles que manifestaram. De forma simples, trata os manifestantes como verdadeiros heróis que, infelizmente, não terão a mesma vitória certa que acompanha os heróis das histórias em quadrinho, muito pelo contrário. E é para mostrar essa frustração que o diretor sufoca o espectador através de cenas pavorosas e por uma trilha sonora forte e expressiva. Em uma cena desesperadora, por exemplo, uma personagem corre de um lado a outro fugindo de vários soltados que apontam suas armas para ela, enquanto isso, um homem fica parado apenas esperando que seu destino seja selado pela munição que deixará aquelas armas e se impregnará em seu corpo.


Indivíduos curiosos, uma vida tranquila e muita cultura compõe as primeiras cenas de África 50, de René Vautier. O diretor, assim, apresenta a beleza do povo africano, foca em crianças que olham sua câmera com o desejo de conhecer o objeto, mostra a tradição e o modo de vida adotados por aquele povo e a forma carinhosa com a qual tratam uns aos outros. Depois, entretanto, Vautier deixa os sorrisos, as brincadeiras e as danças de lado e esbofeteia o público com cenas aterradoras da exploração europeia nas colônias da África Ocidental Francesa. O que antes era belo e harmônico passa a se tornar triste e tão sufocante quanto as cenas de Manhã cinzenta. As mulheres que antes arrumavam os cabelos estão mortas, as crianças que antes pulavam alegremente nas águas estão mortas, os homens que antes cuidavam dos animais que alimentariam suas famílias também estão mortos. E todas essas mortes são ocasionadas por um motivo incompreensível, mas simples: a sede de poder que envolve os franceses e o capitalismo, que, sem dúvida, é o maior aliado nessa busca incansável.
Imagine essa cena: um professor está de costas escrevendo no quadro, um garoto, no fundo da sala, bate um apagador na mesa. Sem conseguir identificar o aluno, o professor ordena que os jovens do fundo da sala saiam e voltem apenas em duas circunstâncias: ou quando contarem quem é o “culpado”, ou após passarem uma semana do lado de fora. Baseado nessa encenação, Primeiro caso, segundo caso questiona a solidariedade de grupo e o sistema vigente que faz de tudo para dissolver qualquer grupo que possua opiniões próprias. Para que as mais diversas pessoas possam dar suas opiniões – o que inclui, por exemplo, estudiosos e líderes religiosos e políticos -, o diretor apresenta as duas escolhas que podem ser feitas pelos alunos: na primeira, um aluno revela quem é o culpado e volta para dentro da sala de aula cabisbaixo e, aparentemente, envergonhado, no segundo momento, todos esperam a uma semana e voltam orgulhosos para a sala de aula. Qual seria a melhor opção? Ceder de imediato ao sistema, ou se mostrar resistente e acabar, uma hora ou outra, retornando ao regime? A Revolução Iraniana, por exemplo, trocou o sistema autoritário monárquico, por uma república comandada por líderes militares religiosos radicais. O que você iria preferir?

Como boa parte do planeta, o Brasil, a África e o Irã foram dominados por ideologias radicais que estabeleceram seus regimes de forma autoritária e violenta. A boa notícia é que o povo brasileiro se revoltou e pediu por um governo justo e realmente democrático para que a ditadura terminasse em 1985. Em 1958, a independência da Guiné fez com que os demais territórios africanos começassem a se erguer contra o sistema vigente, o que culminou na independência total até 1960. Há pouco tempo, a Primavera Árabe modificou as realidades sociopolíticas de todos os países da região, e com o Irã não foi diferente. Mais que denunciar os abusos políticos pelos quais o mundo passou, todos os filmes da Mostra Resistência lembram a importância de a população se erguer contra tais regimes. No ano passado, manifestações no Brasil pediram por melhores condições no país. Mais que exercer seu papel como cidadão, o povo deve clamar por igualdade, resistindo a parâmetros que fogem completamente aos direitos de liberdade de expressão, construindo uma identidade forte e exemplar, passando, assim, a existir de forma concreta.

Após a sessão de sábado (06), Ivana Bentes, professora associada do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRJ, coordenadora do Pontão de Cultura Digital da ECO/UFRJ e curadora na área de arte, mídia, cinema, audiovisual comentou sobre os filmes e sobre a Mostra Resistência, destacando a importância dos filmes apresentados durante o festival para a construção de uma sociedade moderna e desenvolvida.
(Foto: Tiago Araujo)
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