segunda-feira, 30 de junho de 2014

BIOGRAFIA: MERYL STREEP, a primeira dama da Sétima Arte

Com 18 indicações ao Oscar, Meryl Streep é uma das atrizes mais populares e admiradas da história do cinema.



Meryl Streep nasceu em 22 de junho de 1949 em Summit, no estado de Nova Jersey, Estados Unidos. Seu pai, Harry Streep II, era do ramo farmacêutico, e a mãe, Maryl, ilustradora e artista plástica. Durante a infância, a atriz confessa ter sido uma garota com poucos amigos, autoritária e afetada. Também não era nada bonita: usava óculos grandes e aparelhos e o nariz e queixo tortos e as bochechas saltadas, que hoje são uma espécie de marca, se mostravam um incômodo. Aos 12 anos, Meryl teve sua primeira experiência artística reconhecida por alguém que não fosse de sua família e logo começou a ter aulas de canto. Aos 16 anos, entretanto, largou as aulas para viver a adolescência como uma típica chefe de torcida do time da escola. Nessa época, Meryl deixou a menina feia de lado e se tornou uma garota popular no colégio. Foi na escola, também, que Streep teve seu primeiro contato como atriz em uma peçã de teatro. Após finalizar os estudos na escola, Meryl entrou para o Colégio Vassar, onde começou a “desenvolver sua própria identidade e acreditar em si mesma.” Foi lá que a atriz começou a ler seus primeiros grandes livros e a estudar o que realmente a interessava. Quando se formou, Meryl foi aceita pelo Green Mountain Guild, um pequeno grupo teatral. Apesar de não receber muito dinheiro, estava feliz pela oportunidade. Após perceber que a experiência não a levaria a lugar nenhum, matriculou-se na Escola de Drama de Yale, onde permaneceu por três anos. Em Yale, Meryl começou a ser reconhecida pelos professores e acabou trabalhando em mais de 40 produções durante o período em que esteve na Escola. Por seus trabalhos no teatro, Meryl recebeu vários prêmios e chegou a ser indicada ao Tony, o Oscar do teatro.


Na metade da década de 70, a loira conheceu John Cazale nos ensaios da peça “Medida por Medida”, ator por quem se apaixonou. Na mesma época, conseguiu seu primeiro papel no cinema. Em “Julia”, foi dirigida por Fred Zinnemann e contracenou com Jane Fonda e Vanessa Redgrave. Apesar de ter sido uma grande experiência, Streep acabou aparecendo pouco mais de um minuto durante todo o filme. Após o longa, Meryl e John foram convidados por Michael Cimino para estarem ao lado de Robert De Niro e Christopher Walken em “O Franco Atirador”. Apesar de o filme ter rendido à atriz sua primeira indicação ao Oscar como melhor atriz coadjuvante, foi nessa época que descobriu-se o câncer nos ossos do companheiro. No meio das filmagens, enquanto uma equipe foi para a Ásia, Streep e Cazale voltaram para Nova York. Antes de saber que o amado estava doente, porém, Meryl havia assinado um contrato para estrelar a minissérie “Holocausto”, sobre o extermínio durante a Segunda Guerra Mundial. Para cumprir com o contrato, ela teve de deixar John na América e passar um tempo na Europa. Apesar de dividir críticos e público, “Holocausto” foi um sucesso e Meryl recebeu o Emmy, o Oscar da televisão, de melhor atriz por seu trabalho. Streep voltou para os EUA seis semanas depois e permaneceu ao lado de Cazale no hospital. John Cazale, famoso por sua participação nos dois primeiros filmes da trilogia “O Poderoso Chefão”, morreu em março de 1978, aos 42 anos de idade. Logo após a morte de John, Meryl teve de abandonar o apartamento onde vivia e deixou as coisas no atelier de um amigo o irmão, Don Gummer. Meryl, então, começou as filmagens de “A Vida Íntima de um Político” em Washington, D. C.. Assim que as filmagens terminaram e Meryl voltou para Nova York, Woody Allen a convidou para uma pequena participação em seu novo filme, “Manhattan”. Enquanto Don passava um tempo na Europa, Meryl morou em seu atelier. No verão de 1978, Meryl voltou ao teatro e recebeu a proposta para trabalhar na adaptação “Kamer vs. Kamer”. Mas a atriz ainda era pouco famosa e não tinha muitos créditos no cinema, assim, o convite era para uma pequena participação. Meryl, no entanto, chegou à primeira reunião achando que sua personagem era Joana e ninguém quis desfazer o mal entendido, afinal, Kate Jackson, que interpretaria o par de Dustin Hoffman, não havia sido liberada para fazer o filme. Em junho, o longa começou a ser filmado, em setembro, Meryl e Don se casaram e em 13 novembro de 1979, um mês antes do lançamento do filme, Meryl e Don tiveram o primeiro filho: Henry. De imediato, o longa foi um sucesso mundial. O tabu relacionado a divórcio e aos direitos paternos e/ou maternos começou a ser debatido e o filme se tornou um marco na história da sociedade. Uma das cenas mais importantes para tal influência, aliás, a cena do tribunal, foi escrita pela própria atriz. Meryl, que estava escalada apenas para uma participação, ganhou diversos prêmios como atriz coadjuvante, incluindo o Oscar. “Kammer VS. Kammer” ainda saiu vencedor nas categorias de melhor filme, melhor ator (Dustin Hoffman), melhor direção e melhor roteiro adaptado (Robert Benton) e foi indicado em outras quatro categorias.


E assim iniciou a década de 1980 para Meryl Streep: a mamãe de primeira viagem recebendo um Oscar. Após tantos trabalhos e sufoco no cinema e televisão, Meryl resolveu voltar ao teatro com o musical Alice in Concert.  O sucesso foi entre público e críticos e Meryl voltou a receber prêmios. Em 1981, atuou ao lado de Jeremy Irons pela primeira vez no longa “A Mulher do Tenente Francês”, pelo qual recebeu sua primeira indicação ao Oscar como melhor atriz principal. Irons declarou que ele e a atriz tiveram um romance durante as filmagens, o que fez a vida de Meryl virar um inferno onde o demônio era representado pelas câmeras fotográficas que a vigiavam constantemente. Meryl desmentiu e levou um tempo para se recuperar do escândalo. Apesar de não ter levado o Oscar, a atriz foi reconhecida com o Globo de Ouro e o BAFTA (o Oscar britânico). O tão aguardado Oscar de melhor atriz veio em 1983, com a interpretação de Sofia em “A Escolha de Sofia”. O filme, ambientado na Segunda Guerra, conta a história de uma mãe perseguida pelos nazistas que tem que fazer uma escolha terrível. A cena em que Sofia é obriga a tomar tal decisão é uma das cenas mais fortes já produzidas pelo cinema. Para viver a personagem, Meryl desenvolveu o sotaque polonês e aprendeu a falar alemão e polonês para algumas cenas. Em 3 agosto daquele ano, Meryl e Don tiveram Mamie Gummer, a primeira das três filhas do casal. No ano seguinte, Meryl repediu a indicação ao Oscar de melhor atriz pelo filme “Silkwood: O Retrato de Uma Coragem” e contracenou novamente com Robert De Niro em “Amor à Primeira Vista”. A história sobre Karen Silkwood, uma mulher que denuncia a fábrica de plutônio em que trabalhava devido aos erros de segurança, não a deixaram nem próxima do tão cobiçado prêmio. Em 1986, Meryl foi indicada por “Entre dois Amores”, mais uma vez, não saiu vencedora, mas sua interpretação de Karen Blixen foi uma das mais belas de sua carreira. “Entre Dois Amores” foi indicado em 11 categorias na premiação, e saiu vencedor de sete: filme, direção (Sydney Pollack), roteiro adaptado (Kurt Luedtke), fotografia, direção de arte, som e trilha sonora (John Barry). Anos atrás, Meryl desabafou sobre a fatalidade de nunca ter participado de um clássico do cinema. Chegou a fazer uma revisão de sua carreira para tentar encontrar algum filme que se igualasse às grandes produções da Sétima Arte. Streep não encontrou nenhum clássico. Para mim, “Entre Dois Amores” é esse filme. Sydney Pollack é um dos diretores americanos mais importantes da história do cinema americano, a fotografia é surpreendente, o roteiro é real sem ser chato, a edição foi feita por um quarteto exemplar, o figurino (de Milena Canonero) é extremamente expressivo, a trilha sonora é do compositor mais sensível da história do cinema e as interpretações de Streep, Robert Redford, Klaus Maria Brandauer e Malick Bowens são incríveis. Eis um clássico do cinema. Mas, deixando as modéstias de Meryl de lado, voltemos à sua biografia. Em 9 de maio do mesmo ano em que recebeu sua sexta indicação ao Oscar, teve Grace, a segunda filha com Don. Foi naquele ano, também, que estrelou o filme “A Difícil Arte de Amar” ao lado de Jack Nicholson, do diretor Mike Nichols. Durante as filmagens, Meryl ficou grávida de Grace e chegou-se a cogitar a possibilidade de ela e Nicholson estarem tendo um caso. No ano seguinte, repediu a dose ao lado de Nicholson no filme “Ironweed”, de Hector Babenco. Pelo drama (e que drama), ambos foram indicados ao Oscar. Talvez, o teor violento e realista demais do longa tenha feito a academia rejeitar ambos os artistas. “Um Grito no Escuro” (1989), que conta a história de uma mãe que é acusada do assassinato do próprio filho lhe rendeu mais uma indicação ao Oscar. No ano seguinte, Meryl esteve no fracasso “Ela É o Diabo”, filme apresentado constantemente no período diurno em na televisão.


A década de 1990 começou agitada para Meryl: voltou a ser dirigida por Mike Nichols em “Lembranças de Hollywood”. O filme sobre a relação de mãe filha deu à Meryl a chance de contracenar com Shirley MacLaine e lhe trouxe mais uma indicação ao Oscar. Em 1991, no dia 12 de junho, Meryl, então com 41 anos, teve sua última filha, Louisa Jacobson Gummer. Naquele ano, ainda, foi vista no mediano “Um Visto Para o Céu”. Como na década anterior, Meryl emplacou, ao menos, um filme por ano na década de 90. Entre 1992 e 1995, foram: a comédia de humor negro “A Morte Lhe Cai Bem”, o drama épico “A Casa dos Espíritos”, o thriller “O Rio Selvagem” e o romance “As Ponte de Madison”, respectivamente. Este, conta a paixão entre uma fazendeira italiana que vive nos EUA e um fotógrafo americano. Dirigida e dividindo a cenas com Clint Eastwood, Meryl voltou a ser indicada ao Oscar após quatro anos sem aparecer na premiação. Esse foi o período mais longo que Meryl ficou sem receber uma indicação à premiação máxima do cinema. Com “As Pontes de Madison”, Meryl recebeu sua décima indicação ao Oscar (duas de melhor atriz coadjuvante e oito de melhor atriz), igualado-se a Bette Davis em número de indicações. Meryl e Clint foram alvo de notícias que cogitavam um caso amoroso entre eles. Ambos negaram. “Antes e Depois” e “As Filhas de Marvin” foram os dois filmes lançados em 1996. Este, contava, ainda com Leonardo DiCaprio, Diane Keaton, Robert De Niro e Margo Martindale no elenco. O péssimo “A Dança das Paixões” dividiu o ano de 1998 com “Um Amor Verdadeiro”, pelo qual Meryl foi indicada novamente ao Oscar. O filme conta a história de uma mulher que descobre ter câncer e sobre sua relação com a filha que vivia longe da cidade natal há anos. O ano seguinte foi marcado por muitos trabalhos, quatro no total e Meryl provou que optarem por ela para protagonista de “Música do Coração” foi a melhor escolha. Ao lado dela, Madona lutava pelo papel. Meryl aprendeu a tocar violino e recebeu a décima segunda indicação ao Oscar. Agora, a atriz se igualava à Katharine Hepburn em número de indicações. Apesar disso tudo, os anos 90 foram marcados por filmes com pouca ou nenhuma popularidade. Apesar de ser indicada e vencer alguns prêmios, apesar de Meryl ter representado alguns dos melhores papeis de sua carreira, apesar de a atriz ter realizado alguns dos filmes que ela mais gosta, o público não recebeu os longas escolhidos por ela com tanta excitação.


Com o início do novo século, veio a morte de Mary Streep, mãe de Meryl. No ano de 2003 foi a vez de Harry, o pai, dar adeus. Ela morreu com 86 anos e ele com 93. Ainda em 2001, atuou na peça “The Seagull”. Em 2002, Meryl atuou como coadjuvante em dois filmes: “Adaptação”, que lhe rendeu a terceira indicação ao Oscar como melhor atriz coadjuvante, e “As Horas”. Com “Adaptação”, Meryl se tornou a intérprete, entre homens e mulheres, com mais indicações ao Oscar. Entre 2003 e 2007, apesar de grandes filmes, Meryl esteve mais um período sem nenhuma indicação ao prêmio da Academia. Ainda em 2003, venceu o Emmy e o prêmio do Sindicato dos Atores, o SAG, pela minissérie “Angels in America”, onde viveu quatro personagens e atuou ao lado de Al Pacino. Em 2004, foram “Sob o Domínio do Mal” e “Desventuras em Série”, em 2005, “Terapia do Amor” e em 2006, “A Última Noite”, “Lucas: Um Intruso no Formigueiro” (uma animação) e “O Diabo Veste Prada”. Por sua interpretação como a editora de revista de moda Miranda Priestly, Meryl voltou ao Oscar em 2007 com a indicação de melhor atriz. Apesar de o filme ser uma comédia sem grandes atrativos (com exceção a Meryl), foi a representação da volta da atriz aos braços do público. Mesmo que a personagem fosse uma mulher sádica e mau humorada, Meryl foi aceita pelo público e seu nome se tornou um dos mais falados na boca das novas gerações nascidas nas décadas de 1980 e 1990. Em 2006, Meryl ainda esteve na peça teatral “Mother Courage And Her Children”. Nos anos seguinte, prestes a completar 60 anos, contra todos os credos da indústria cinematográfica, Meryl Streep estava se tornando a atriz mais querida pelo povo americano e mundial. A partir dali, Meryl começou a se entregar a intensos ritmos de trabalho. Em 2007, esteve em “Ao Entardecer”, em “O Suspeito” e em “Leões e Cordeiros”. Com “Mamma Mia! – O Filme”, a adaptação do musical da Broadway baseada nas músicas do grupo ABBA, Meryl cantou e dançou como se ainda fosse uma mulher de vinte anos, foi indicada ao Globo de Ouro pelo papel de Donna e viu sua popularidade aumentar consideravelmente. No mesmo ano, recebeu, pela primeira vez por um papel no cinema, o prêmio de melhor atriz do Sindicato dos Atores pelo filme “Dúvida”, o qual rendeu mais uma indicação ao Oscar. O ano de 2009 foi vivido por três comédias: a animação “O Fantástico Sr. Raposo”, a comédia romântica da terceira idade “Simplesmente Complicado” (onde uma mulher de mais de 60 anos, vivida por Streep, foi disputada por personagens vividos por Alec Baldwin e Steve Martin) e, por fim, a biografia de Julie Powell, jovem que se tornou uma grande fã da mestre de cozinha Julia Child. A interpretação de Child rendeu à Meryl sua décima terceira indicação ao Oscar na categoria de melhor atriz (como adjuvante, foram três indicações até hoje), tornando-a a atriz com mais indicações nessa categoria. A popularidade de Meryl a levou a dezenas de programas de entrevistas e a algumas participações em séries como “Web Therapy”.


Em 2011, Meryl, com então 62 anos, tornou-se a mulher mais velha a estampar a capa da revista norte-americana Vogue. No mesmo ano, estreou nos cinemas com a tão esperada cinebiografia da ex primeira ministra britânica, Margaret Thatcher. Era a primeira-dama de Hollywood vivendo a primeira-ministra da Inglaterra. Mesmo sendo americana, Meryl interpretou com perfeição o sotaque de Thatcher. O filme dividiu opiniões, causando inúmeras polêmicas nos EUA, no Reino Unido e na Argentina (o filme retrata o episódio das Ilhas Malvinas). Meryl, após 29 anos sem pronunciar um agradecimento ao Oscar, após 12 derrotas consecutivas, obteve, com “A Dama de Ferro”, seu terceiro Oscar, o segundo de melhor atriz, deixando a lista das mulheres que venceram duas estatuetas e se igualando a Ingrid Bergman, vencedora de dois prêmios de melhor atriz principal e um como coadjuvante. Anunciada por Colin Firth, que a definiu como excepcional, uma Meryl muito surpresa beijou o marido orgulhoso e emocionado e subiu ao palco sendo aplaudida em pé por todo o teatro. “Meu Deus, por favor, tudo bem... Muito obrigada. Obrigada. Obrigada. Quando chamaram meu nome eu tive essa impressão de ouvir metade da América dizendo: ‘Oh não, por favor, por que? Ela, de novo’, mas, você sabe, seja o que for...”, foram as primeira palavras da vencedora. Depois, Meryl agradeceu a Don, antes que começassem a tocar a música anunciando o final do discurso, por ele ter proporcionado a ela os melhores momentos de sua vida. Em especial, agradeceu a Roy Helland, maquiador e cabeleireiro que ela conheceu há 37 anos e com quem trabalhou continuamente desde “A Escolha de Sofia” até “A Dama de Ferro”, quando ele venceu o Oscar na categoria de melhor maquiagem e cabelo.  Meryl ainda aproveitou a oportunidade, “por que eu realmente entendo que nunca mais subirei aqui novamente.” para agradecer não somente a Roy, mas a todos os amigos e colegas. “Eu olho aqui e vejo minha vida em frente aos meus olhos. Meus velhos amigos e meus novos amigos. E, realmente, essa é uma grande honra, mas o que mais conta para mim são as amizades, o amor e a alegria compartilhada enquanto fazemos filmes, meus amigos. Obrigada a todos vocês, os que já se foram e os que estão aqui por essa inexplicável maravilhosa carreira. Obrigada.”, finalizou Meryl. Em 2012, Meryl estrelou o filme “Um Divã Para Dois” sobre um casal de meia idade que tenta recuperar sua vida sexual e voltou aos palcos em “Romeu e Julieta”. No começo deste ano, Meryl obteve sua 18ª indicação ao Oscar pelo filme “Álbum de Família”. Apesar de perder o prêmio, Meryl protagonizou, ao lado de Bradley Cooper, Ellen Degeneres (apresentadora da cerimônia), Jennifer Lawrence, Jared Leto (vencedor como melhor ator coadjuvante), Channing Tatum, Julia Roberts, Kevin Spacey, Brad Pitt, Angelina Jolie, Lupita Nyong’o  (vencedora como melhor atriz coadjuvante) e o irmão desta a selfie mais tuitada da história. Ao todo, foram mais de 2,7 milhões de compartilhamentos.



 No Globo de Ouro, foram 27 indicações e oito prêmios (dois recordes). No BAFTA, foram 12 indicações com duas vitórias, incluindo por “A Dama de Ferro”. No SAG foram 15 indicações (mais um recorde) e duas vitórias. Dentre outros prêmios em festivais e prêmios de críticos de todo o mundo, Meryl foi indicada aproximadamente 130 vezes e venceu cerca de 120 outros prêmios. Isso, sem contar suas indicações e prêmios no teatro. Em 2004, Meryl recebeu uma estrela na Calçada da Fama em Hollywood, localizada no número 7020 de Hollywood Boulevard e deixou sua assinatura e marca das mãos e dos pés em frente ao Teatro Chinês TCL, um cinema localizado em Hollywood. Em 2007, Meryl foi incluída no Hall da Fama de Nova Jersey, uma homenagem aos nascidos naquele estado que contribuíram de forma significativa para a cultura mundial. A atriz também recebeu o prêmio honorário do American Film Institute (AFI) em 2004 por sua contribuição para a Sétima Arte como atriz. Em 2010, o próprio presidente dos Estados Unidos, Barack Obama (fã assumido da atriz) a escolheu para receber a Medalha Nacional das Artes e o prêmio do Kennedy pela contribuição às artes. Meryl foi reconhecida com doutorados honorários em artes pelas Universidades de Yale (1983), de Princeton (2008), de Harvard (2010) e de Indiana (2014). No verão americano deste ano, Meryl estreou como coadjuvante do filme “The Homesman”, com direção de Tommy Lee Jones e com interpretações de Hilary Swank e de Grance Gummer, filha de Meryl. Ainda a serem lançados no cinema, estão “Suffragete”, filme sobre a luta dos direitos femininos (Meryl interpreta a personalidade britânica real Emmeline Punkhurst), “O Doados de Memórias”, ficção científica sobre uma sociedade utópica (Meryl é uma das mulheres que controla o sistema social vigente), “Into the Woods”, um musical sobre uma bruxa que quer acabar com vários contos de fadas (Meryl é a bruxa) e “Ricky and the Flash”, drama sobre uma estrela do rock de meia idade que tenta se reconectar com os filhos (Meryl é a estrela do rock). Na televisão, recentemente, publicou-se que Meryl viverá a cantora lírica Maria Callas durante o período em que ela foi professora da Escola Julliard. 


CONFIRA A FILMOGRAFIA DA ATRIZ NO BLOG AQUI!

ACESSE NOSSA PÁGINA NO YOUTUBE:
 http://www.youtube.com/user/projeto399filmes

domingo, 29 de junho de 2014

001. O PODEROSO CHEFÃO - PARTE III, de Francis Ford Coppola

Após dois filmes, Coppola mostra que ainda pode surpreender e encerra a saga da família Corleone com chave de ouro.
Nota: 9,7



Título Original: The Godfather Part III
Direção: Francis Ford Coppola
Elenco: Al Pacino, Diane Keaton, Talia Shire, Andy Garcia, Eli Wallach, Joe Mantegna, George Hamilton, Bridget Fonda, Sofia Coppola, Raf Vallone, Franc D’Ambrosio, Donal Donnelly, Richard Bright, Helmut Berger, Don Novello, John Savage, Franco Citti, Mario Donatone, Vittorio Duse, Enzo Robutti, Richele Russo, Al Martino, Robert Cicchini, Rogerio Miranda, Carlos Miranda, Vito Antuofermo,
Produção: Francis Ford Coppola, Gray Frederickson, Fred Fuchs, Nicholas Gage, Marina Gefter, Charles Mulvehill e Fred Roos
Roteiro: Francis Ford Coppola e Mario Puzo
Ano: 1990
Duração: 170 min.
Gênero: Drama / Crime

CONFIRA O TRAILER DO FILME:


Michael Corleone ficou conhecido por ser filho de Don Vito Corleone, um dos italianos mais poderosos da América. Depois da morte do pai, mesmo tendo outros dois irmãos, Michael se tornou o novo Don Corleone e, surpreendentemente, tornou-se muito mais poderoso, rico e influente que seu pai. Hoje, passaram-se aproximadamente 20 anos desde que Vito morreu. Os filhos e sobrinhos de Michael são adultos, Kay continua preferindo se manter distante do pai dos filhos e Connie permanece junto ao irmão em qualquer ocasião. Mas Michael está ficando velho, e, apesar de os mafiosos terem o poder de adiantar algumas mortes, nem mesmo eles podem detê-la para sempre.


“O Poderoso Chefão – Parte III” inicia com uma homenagem que Michael recebe da Santa Igreja Católica, homenagem ofertada pelo próprio Papa. Após a cerimônia, todos se reúnem em uma festa muito bonita e agradável, onde Michael doa cem milhões de dólares para a Igreja. E aí já começamos a ver o quanto os Corleone serão sempre os mesmos, não importa o que aconteça. Após 14 anos, Francis Ford Coppola lançou o derradeiro filme de sua trilogia épica. As décadas de 1970 e 1980 foram de extrema importância para o cinema moderno devido a nova geração de cineastas que começou a se impor, trazendo técnicas e temas inéditos, inovadores e inspiradores. Foi devido a essas novidades que os filmes da época conquistaram o público de forma inacreditável e serviam de modelo para outros cineastas, que passaram a experimentar e até desenvolver técnicas propostas por nomes como Coppola, Martin Scorsese, Woody Allen, George Lucas e Steven Spilberg. E se as primeiras partes daquela trilogia inspiraram as décadas de 70 e 80, podemos afirmar que a terceira parte da série foi referência para inúmeros filmes da década de 90. Dentre os exemplos, podemos citar a edição ágil e clássica proposta por Lisa Fruchtman, Barry Malkin e Walter Murch, a direção de arte e a produção de design dos irmãos Alex e Dean Tavoularis, e a iluminação e fotografia de Gordon Willis, proposta que vinha desde a primeira parte da trilogia.


Mario Puzo, que eternizou seu nome na Sétima Arte através dos filmes baseados em seu romance homônimo, está ao lado de Coppola para finalizar a série. Aqui, a história se torna mais moderna e um pouco menos impactante que nos dois primeiros longas. Temos um Michael diferente do visto nos outros filmes. Já não é mais um menino que cometeu seu primeiro assassinato. Também não é um homem que está começando a se firmar como o merecido herdeiro do pai. O Don Michael Corleone do final da década de 70 (quando ocorre a história) é um homem que se arrepende de seu passado, um homem debilitado que está começando a compreender que não é mais capaz de chefiar todos os seus negócios pela idade. E se Michael já não possui aquele vigor de outrora, o mesmo podemos dizer de Connie e Kay. Enquanto a irmã já perdoou Michael pelo assassinato do marido traíra, Kay ainda se ressente por seu grande amor ter se tornado uma pessoa tão diferente. E essas novas personalidades, essa forma de apresentar personagens maduros, se contrasta com os personagens mais jovens vividos pelos filhos e sobrinhos do protagonista: indivíduos cheios de vida que buscam por seus amores e sonhos. O próximo Don, por exemplo, e isso fica claro desde a primeira aparição do personagem, é o filho bastardo de Sonny. Vincent é o perfeito retrato do pai: temperamental e louco pelo poder. Ainda nessa geração, temos os filhos de Michael. Mary é uma jovem sonhadora que se apaixona por Vincent e está decidida a viver esse amor, não importa o que qualquer pessoa pense a respeito. Anthony também tem sua paixão e luta por ela, mas o amor deste é a música e, mesmo que Michael queira obrigá-lo a ser seu sucessor, o jovem está pronto para ir até o fim em se dedicar à sua arte.


Mas nem tudo nesse roteiro é tão novo quanto as personalidades dos personagens ou essa relação com a Igreja: existem dezenas de semelhanças entre esse filme e a primeira parte da trilogia. A primeira já é vista logo no início. Quando Michael é homenageado e depois oferece uma festa aos seus “afilhados” vemos uma clara referência ao casamento de Connie. Depois, temos o tiroteio que tem como objetivo aniquilar alguns Dons, o que inclui Michael. Esteticamente, a cena lembra o assassinato de Sonny, mas também pode ser uma referência à tentativa de assassinato de Vito. Enquanto no primeiro filme os tiros atingem Vito e o levam para o hospital, aqui, Michael, que é diabético, tem um ataque devido ao susto e vai para o hospital. A reação dos Corleone diante desses eventos, entretanto, é a mesma: Michael, na primeira parte, comete seu primeiro assassinato para vingar o pai, e aqui, Vincent assassina o homem que ordenou o ataque contra o tio. De qualquer forma, Vito e Michael, mesmo vingados, ficam à beira da morte. E quando percebem que está na hora de passar seu poder adiante, eles o fazem. Vito deixa claro que o próximo Don Corleone será Michael, ao passo que este nomeia Vincent seu sucessor. No desfecho da trama, Michael revive o primeiro filme: enquanto ele assistia a missa após se tornar Don, dezenas de inimigos eram assassinados por sua ordem, aqui, os assassinatos são coordenados por Vincent enquanto Michael assiste à ópera do filho. Como aconteceu com Vito, por fim, Michael também morre de forma pacífica, estando velho e sem sentir dores. Apesar de viverem momentos distintos, ambos estavam sentados sobre o sol da manhã.


Apontei como os Corleone são os melhores anti-heróis já criados quando disse, na crítica do primeiro filme da saga dessa família, que eles são o que há de mais podre na face da terra e, mesmo sabendo disso, os amamos. E Michael é um dos grandes responsáveis por isso. Ou melhor, Al Pacino é um dos grandes responsáveis por qualquer afeição que nutrimos pelo personagem e por sua família. No início, ele é o filho que não deseja seguir os passos do pai, por isso o amamos. Depois, vinga sua família com sangue e, por isso, ganha nossa admiração. Mais tarde, ordena que o irmão seja assassinado, mas justifica o ato alegando que Fredo estaria comprometendo a família. E mesmo com este fratricídio, continuamos amando Michael. E o personagem passa a ser mais amado ainda pelos estadunidenses após suas palavras ensaiadas sobre ser um americano cumpridor dos deveres no discurso que o livra da cadeia. Mas Al Pacino não é apenas o responsável por viver o maior anti-herói da história do cinema, ele é um assombro ainda maior que nos primeiros filmes da série, pois está ainda mais expressivo. Tanto Michael, quanto Al, são mais experientes, portanto, já viveram mais e estão mais aptos para enfrentar as dificuldades da velhice. Desta vez, Pacino não repetiu a dose de ser indicado ao Oscar (havia sido indicado como melhor ator coadjuvante pelo primeiro filme e como melhor ator pelo segundo), mas, talvez, seja essa sua interpretação mais dramática e verdadeira em toda a trilogia. O trabalho que, sem dúvidas, merecia o prêmio da Academia.


Todavia Al Pacino não é o único intérprete que volta ao longa com mais experiência e sagacidade. Diane Keaton, a ex esposa Kay Adams, e Talia Shire, a irmã Connie, repetem suas personagens. Keaton demora a aparecer, mas quando surge em cena se mostra a mesma mulher dos outros filmes: mãe zelosa e mulher apaixonada. As duas cenas que definem isso são explícitas: em uma, deixa claro a Michael que estará ao lado de Anthony na ideia de largar o direito e se tornar músico, na outra, passeia ao lado do ex marido pela cidade onde o falecido sogro nasceu, e acaba confessando a Michael que sempre o amou. Shire, por outro lado, não possui nenhuma grande cena, mas aparece em vários momentos demonstrando que a Connie submissa ao marido morreu e deu lugar a uma mulher de fibra que, finalmente, compreendeu o que significa fazer parte da família Corleone. Ambas as atrizes fazem tudo demonstrando como suas personagens cresceram e aprenderam com o que viveram. São duas atrizes que voltam às suas personagens depois de 14 anos, mas não que interpretam mulheres completamente distintas daquelas que largaram no passado. Diferente disso: a Kay doce e romântica e a Connie fiel à família estão lá mais do que nunca.


O elenco, entretanto, não pode ser resumido a duas atrizes e um ator como se isso fosse uma comédia romântica. Longe disso. Longe de ser um elenco de três pessoas e mais longe ainda de ser uma comédia romântica. Andy Garcia, indicado ao Oscar por seu Vincent, lembra muito (a nós e aos personagens) o pai que morreu de forma trágica (assassinado com a ajuda do marido de Connie). E talvez esse seja o ponto alto do ator, uma vez que Sonny representava um personagem tão particular e expressivo, até por que, Garcia apenas lembra o pai do personagem, mas não se tornar uma caricatura ou cópia. Sofia Coppola vem para provar que a década de 90 foi uma das mais românticas do cinema moderno. Ela vive uma Mary boba, inocente e apaixonada por Vincent, uma menina mimada e sem graça. Coppola não possui nada de muito interessante e chega a ser chata em algumas cenas. Ainda bem que a atriz passou para o outro lado da câmera e se tornou uma diretora competente e admirável. Franc D’Ambrosio fecha o elenco principal da família como Anthony Vito Corleone, apesar de ser um ótimo ator, esse foi o único filme da carreira de D’Ambrosio, que se mostra um verdadeiro cantor ao interpretar a canção “Brucia La Luna”. Só para não deixar de citar os demais personagens importante, aqui vai uma pequena lista: Eli Wallach dá vida ao vira-casacas Don Altobello, Joe Mantegna, vive o desafeto Zoey Zasa, Raf Vallone, o Cardeal Lamberto, Donal Donnelly, o Arcebispo Gilday e John Savage, interpreta o filho de Tom Hagen, Padre Andrew Hagen.


Sequências de qualquer tipo de série de filmes sempre dão aquele frio na barriga. Com a trilogia de Coppola não foi diferente. Entretanto, poucas vezes vimos sequências tão satisfatórias como essas. O segundo filme da série mescla as histórias de Michael e Vito e se torna o filme mais violento dos três. A terceira parte, todavia, se mostra um filme mais psicológico, um longa que está disposto a abordar as consequências de tudo o que Michael fez. Consequências sofridas por ele e por toda sua família. Consequências que afetam a consciência do protagonista do início ao fim. O filme, definitivamente, não é o melhor da trilogia, até por que, nenhum filme feito até hoje no cinema supera a primeira parte, mas não podemos negar a qualidade e a importância do desfecho da história. Assim sendo, não foi apenas por ter homenageado a trilogia na centésima e na ducentésima críticas do blog que escolhi a terceira parte da saga dos Corleone para finalizar as 399 críticas. Após 398 análises, acho justo que termine este trabalho da mesma forma que Francis Ford Coppola finalizou a melhor trilogia da história do cinema: com dignidade e muita qualidade. Com chave de ouro.


Como fiz com os outros dois filmes da série, abaixo segue a lista dos dez melhores momentos do longa (as informações abaixo contém SPOILER):
10. Homenagem e festa: o início do filme, como citei, já lembra quem é a família Corleone e do que eles estão dispostos para subirem ainda mais na sociedade. Essa cena mistura a alegria do povo italiano com a malandragem dos mafiosos como se tudo fosse uma coisa só;


09. Michael revela seu interesse pela International Immobiliare: pode não ser uma cena impactante, mas é uma cena de grande valor para o contexto e é muito bom ver o Don Michael Corleone fazendo negócios, ou melhor, fazendo suas propostas irrecusáveis;



08. Tarde de Michael e Kay passeando pela cidade: apesar de ser uma cena simples, evoca os outros filmes, o passado dos Corleone e a relação bonita que o casal tinha quando Kay ainda achava que políticos eram honestos;


07. Volta de Michael para a Itália: aliando-se ao fato de Michael reunir a família para prestigiar o sucesso do filho, é o momento em que o protagonista sai do hospital e mostra a todos que o Don Corleone está vivo e bem de saúde, capaz de tomar as rédeas da própria vida;


06. Michael aceita Vincent como seu herdeiro: após Vincent provar ao tio que é digno de sua confiança, Michael o reconhece como seu sobrinho, chamando-o de Vincent Corleone, e declarando que ele será seu sucessor. Como foi feito com Michael no final do primeiro filme da trilogia, os homens se aproximam de Vincent e beijam a mão do novo Don;


05. Massacre: em uma cena épica, os “aliados” de Michael sofrem um homicídio em massa orquestrado por Altobello e Zasa. A cena é perfeita e não poupa em mostram os homens morrendo. Além disso, a sequência, onde Michael tem seu ataque devido a glicemia e a pressão, é uma das cenas mais forte do longa;


04. Confissão de Michael Corleone: após 30 anos sem se confessar, finalmente, Michael, em sua passagem pela Itália, encontra com um pároco e, como um bom católico que realmente é, resolve se acertar com Deus. Michael confessa seus crimes, o que inclui a morte do irmão, Fredo. A cena é impactante e memorável justamente por isso: friamente, Michael fala que já matou e ordenou que matassem, e, com todo o sentimentalismo do mundo, revela, chorando, que mandou matarem seu próprio irmão;


03. Anthony entoa a canção “Brucia la Terra”: a letra de Giuseppe Rinaldi acompanha a música tema criada por Nino Rota, um dos temas mais inesquecíveis do cinema. D’Ambrosio tem a voz perfeita para a canção e a emoção gerada por ela (e por Al Pacino) é inexplicável;


02. Noite na ópera: desde o momento em que os personagens chegam ao local da apresentação, passando pelas mortes de vários personagens (o que inclui o Papa), até o momento final em que Michael e Kay choram pela morte da filha. A cena tem a mesma tensão proposta pela cena principal do filme “O Homem que Sabia Demais” de Alfred Hitchcock e é o momento mais expressivo dos protagonistas: indo de alegria pelo sucesso do filho, ao desespero pela morte da filha;



01. Morte de Michael Corleone: se esse fosse um filme isolado, provavelmente teria escolhido a cena da ópera como a melhor do filme, mas estamos falando de uma trilogia. Uma trilogia que mostra a passagem de poder de um pai para seu filho, assim, quando Michael resolve passar seus poderes como Don para seu sobrinho, ele fecha um ciclo. Outras pessoas veem essa trilogia como sendo o relato da vida de Michael. De qualquer forma, a morte de Michael é o final definitivo deste ciclo.


 ACESSE NOSSA PÁGINA NO YOUTUBE:
 http://www.youtube.com/user/projeto399filmes

sábado, 28 de junho de 2014

002. DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, de Glauber Rocha

Denunciando a realidade nordestina, Glauber Rocha questiona: quem é o herói e quem é o vilão? Quem é Deus? Quem é o Diabo?
Nota: 9,8


Título Original: Deus e o Diabo na Terra do Sol
Direção: Glauber Rocha
Elenco: Geraldo Del Rey, Yoná Magalhães, Othan Bastos, Maurício do Valle, Lidio Silva, Sonia Dos Humildes, João Gama, Antonio Pinto, Milton Rosa, Roque Araújo
Produção:
Roteiro: Glauber Rocha, Walter Lima Jr. E Paulo Gil Soares
Ano: 1964
Duração: 119 min.
Gênero: Drama

CONFIRA O TRAILER DO FILME:


Manuel e Rosa são um casal que vive no sertão nordestino trabalhando sol a sol para garantir seu sustento. Certo dia, Manuel conhece um homem, Sebastião, que já está sendo considerado santo pelo povo da região. Esperançoso, Manuel encontra a esposa a esposa que, indiferente, fingi não ouvir uma palavra do marido. Como de costume, o vaqueiro segue seu rumo e leva pouco mais de uma dezena de vacas até um coronel. Chegando lá, Manuel informa que perdeu alguns bichos no meio do caminho. O coronel lhe nega qualquer pagamento, alegando que os animais que morreram eram os de Manuel. Revoltado, o vaqueiro acaba matando o latifundiário. Desesperado e arrependido deste pecado, Manuel corre até Sebastião, pedindo por clemência.


Não se engane se imagina que, depois de todos os acontecimentos, Manuel será perdoado de forma bela e que poderá seguir sua vida sem preocupações. Muito pelo contrário. Sebastião faz promessas e mais promessas ao povo nordestino. Como Antonio Conselheiro, quer que o povo compreenda que todos devem lutar contra o sistema que privilegia os latifundiários. De forma utópica, garante à população que, se tiveram fé em Deus, quando morrerem, os pobres ficarão ricos. Já os ricos, ficarão pobres nas “profundezas do inferno”. Enquanto o “santo” prega suas visões, a igreja e os latifundiários contratam Antonio das Mortes para dar fim em Sebastião. Em uma das cenas mais impressionantes do cinema, entretanto, o beato comete um assassinato sem perdão. Após Manuel subir um morro com uma pedra na cabeça, o “Santo” ordena que ele traga a mulher (descrente de tudo) para o topo junto com uma criança. O que vem a seguir é aterrador: Sebastião apunhala a criança frivolamente. Ameaçada, Rosa consegue pegar o punhal e mata o tal “santo”. Antonio das Mortes, chega ao local, comete uma chacina, verifica que Sebastião já está morto e deixa Manuel e Rosa vivos para contar a história. Acompanhados pelo cego Julio, Rosa e Manuel acabam encontrando Corisco, herdeiro de Lampião, que jurou vingança quando soube dos assassinatos do amigo e de Maria Bonita. Daí pra frente, Manuel se tornará um cangaceiro e Rosa os acompanhará para todos os lugares. Antonio das Mortes, estimulado pelo governo, está atrás de Corisco.


“Deus e o Diabo na Terra do Sol” é considerado, por muitos críticos e especialistas o melhor filme da história do cinema brasileiro. Os que discordam dessa afirmação não se opõe ao fato de ser um dos filmes mais importantes do cinema nacional. Glauber Rocha, o gênio por trás da obra, e o precursor do cinema novo no Brasil, apresenta a verdadeira identidade do povo nordestino. Revela a inocência dos pobres e a ganância dos ricos. Mostra que o povo, em sua maioria, estava sujeito às influências de qualquer homem que pudesse prometer um futuro melhor, mesmo que depois da morte. Por outro lado, também mostra a igreja e os latifundiários que desejavam permanecer no poder e, para tanto, não mediam esforços para isso. Depois, Glauber confunde nossos pensamentos quando vemos Sebastião sacrificando um bebê. Por que Deus precisaria de uma alma tão pura e inocente? Quem, realmente, era Sebastião? Representante de Deus ou do Diabo? Mais à frente, Manuel encontrará Corisco, o representante dos anti-heróis do nordeste, os cangaceiros. A princípio, Corisco de posta como um defensor dos pobres e oprimidos, um homem justo e fiel a sua causa: impedir que os pobres morram de fome. No momento seguinte, estupra uma noiva e ordena que Manuel “castre” o noivo, que assistiu a tudo sem poder fazer nada. Quem é Corisco? Representante de Deus ou do Diabo? E aquela Igreja Católica e os latifundiários? São eles Deuses que defendem o povo das interpretações tortas de Sebastião, ou serão Diabos que querem permanecer no poder? 

O roteiro do filme, por trazer tantos questionamentos e tantas dúvidas aos espectadores, pode ser o maior trunfo de Glauber Rocha, mas não é só dele que o filme é feito. Claro que, em alguns momentos, essas dúvidas levam a confusão ao extremo e o filme parece se perder em sua própria filosofia. Mas isso é recuperado com rapidez e tudo volta a ser compreensível. Glauber reconhece essas possibilidades. Assim, não se prende apenas ao roteiro para tornar “Deus e o Diabo na Terra do Sol” um filme tão importante para o cinema nacional. Este longa foi uma das grandes produções nacionais desde que o cinema brasileiro surgiu. As denúncias feitas por Glauber já haviam sido feitas em grandes clássicos da literatura nacional, mas era a primeira vez que aquilo tudo se tornava mais palpável para populações do sul e do sudeste do país, por exemplo, que viviam longe de toda a realidade sertaneja. A trilha sonora, composta por Sérgio Ricardo e com letras de Glauber Rocha, mistura a canção de cordel com elementos da música de Villa-Lobos, identificando-se os elementos culturais da região em cada música. Vale apontar que a trilha, aqui, é essencial. O filme não chega a ser um musical, mas é a música de cordel cantada em off em momentos específicos que contam a história dos personagens. A fotografia de Roque Araújo surpreende em todos os sentidos: por ser um filme pioneiro no cinema novo e por ser um trabalho feito em filme ainda preto e branco. A maestria de Roque é vista, especialmente, pela forma incrível como os espaços sertanejos são mostrados. Inúmeras vezes, vemos cenas panorâmicas de tirar o fôlego, que mostram a realidade física do sertão nordestino. A qualidade do sonora de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, justamente por ser um filme antigo e por misturar algumas músicas aos diálogos, também surpreende e é excelente. A edição de Rafael Justo Valverde mistura momentos acelerados com momentos mais monótonos, o que confere mais verossimilhança em relação ao contexto representado. Por fim, aliando-se a toda a qualidade técnica, estão os intérpretes de personagens tão bem criados por Glauber e desenvolvidos pelo elenco.


Geraldo Del Rey traz um Manuel que exala esperança, que crê em Deus e nos milagres que ele pode realizar. Quando Manuel conhece Sebastião, entretanto, seu desespero confunde sua fé e ele acaba acreditando que o “padrinho” é um mensageiro do Senhor que veio para lhe trazer uma vida melhor. Mesmo depois que Rosa mata Sebastião, Manuel continua fiel ao “santo”, chegando a entrar para o cangaço para “vingar a morte do padim”. Del Rey é o maior responsável por nos confundir entre o que representa Deus e o que representa o Diabo. Na cena em que Corisco ordena que ele castre o tal noivo, Manuel segura, em uma mão, uma cruz, e, na outra, a faca para fazer o serviço. Aliás, quando entra para o cangaço, Manuel passa a se chamar Satanás. Ao lado de Geraldo, está Yoná Magalhães, como Rosa. Apesar de a personagem não ter muitas falas (característica que marca o todo o filme), Magalhães se sustenta com o olhar e com os gestos. Rosa é uma mulher que parece cética para uns, mas pode ser vista como uma mulher realista. A cena em que a personagem mata Sebastião, é vista, pelo espectador, como um momento de libertação. Não há como não ver na Rosa de Magalhães uma espécie de salvadora que liberta o povo das loucuras de um homem que se autoproclamava santo. Maurício do Valle, intérprete de Antônio das Mortes, possui muito mais falas que Yoná, mas sustenta o personagem pela expressão e pela dúvida. Antônio não sabe qual o melhor caminho, qual é o caminho mais certo, não sabe o que Deus acha melhor, não sabe quem é o verdadeiro representante de Deus. Othon Bastos entra depois da metade do filme, mas ele é um dos personagens mais fortes do elenco e do cinema novo. Corisco é um homem astuto, decidido e corajoso, que defende os oprimidos. Em pelo menos três momentos, Othon toma a cena com monólogos poéticos que parecem ter vindo de grandes peças shakespearianas, mas são verdadeiros momentos escritos por um homem que conhece de berço a realidade do povo nordestino, Glauber Rocha.


“Deus e o Diabo na Terra do Sol”, que completa 50 anos em 2014, é um dos filmes mais expressivos do cinema brasileiro. Sem dúvida, marcou uma época e um estilo de filmes muito particulares. Não há como questionar a beleza na intenção de Glauber Rocha em denunciar os problemas brasileiros. Problemas, que assolaram o país durante séculos e mais séculos, mas que persistiram no nordeste ainda muito depois de o sistema ser modificado. Os diálogos intensos, os monólogos impetuosos, as canções de cordel, o modo de falar regional, as cenas estarrecedoras, o ritmo alternado, o cenário árido, as interpretações marcantes e a realidade assombrosa fazem de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” um filme completo. Mas, de tudo isso, o que mais adentra na alma do espectador são as dúvidas, as questões, as incertezas, enfim, as interrogações levantadas pelo longa. Quem é Deus? Quem é o Diabo? O título em inglês do filme foi estabelecido como “Black God, White Devil” (Deus Negro, Diabo Branco), mas será que é tão simples assim? Será que basta influenciar a mente do espectador a crer que nem tudo é o que parece? Ou o buraco é mais embaixo? Aqui, temos apenas uma certeza: todos estão na Terra do Sol, do Sol escaldante, do Sol impiedoso, do Sol incessante. Mas quem é Deus? Quem é o Diabo? Isso não podemos afirmar.


 ACESSE NOSSA PÁGINA NO YOUTUBE:
 http://www.youtube.com/user/projeto399filmes

sexta-feira, 27 de junho de 2014

003. CIDADÃO KANE, de Orson Welles

Welles não realizou apenas um dos filmes mais enigmáticos do cinema, como também dirigiu, produziu, roteirizou e atou em um dos filmes mais importantes da Sétima Arte.
Nota: 9,8


Título Original: Citizen Kane
Direção: Orson Welles
Elenco: Orson Welles, Joseph Cotten, Dorothy Comingore, Agnes Moorehead, Ruth Warrick, Ray Collind, Everett Slone, Erskine Sanford, William Alland, Paul Stewart, George Coulouris, Fortunio Bonanova, Gus Schilling, Philip Van Zandt, Georgia Backus, Harry Shannon, Sonny Bupp e Buddy Swan
Produção: Orson Welles e George Schaefer
Roteiro: Orson Welles, Herman J. Mankiewicz, John Houseman, Roger Q. Denny e Millie Kent
Ano: 1941
Duração: 119 min.
Gênero: Drama

CONFIRA O TRAILER DO FILME:


Mary Kane era apenas a proprietária de uma simples pensão. Todavia, sua realidade mudou quando recebeu uma propriedade de um devedor: descobriu-se petróleo na região. Sendo assim, Mary se tornou uma mulher rica. Seu pequeno filho, Charles Foster Kane, foi levado para Nova York, longe dela e do pai, para que tivesse a educação propícia para um novo rico. Assim, Charlie cresceu longe da família e, aos 25 anos, decidiu assumir, dentre todos os bens que compunham sua fortuna, apenas o jornal Inquirer. Com o passar dos anos, Kane se tornou o maior executivo da imprensa norte americana, um dos homens mais ricos do mundo e o homem mais poderoso dos Estados Unidos.


O longa tem como primeira cena a morte de Charles Kane. Ele balbucia sua última palavra, “Rosebud”, e deixa um globo de neve cair de sua mão. A enfermeira corre até a cama do homem e constata: Charles Foster Kane está morto. Em seguida, um documentário feito pelos próprios funcionários do Inquirer é apresentado mostrando a história da vida de Kane, sua luxuosa casa, suas coleções de obras de arte, seus casamentos, suas tentativas de se tornar um político. Mas há uma coisa que falta nessa história: o que significaria “Rosebud” (broto de rosa, na tradução literal do inglês)? Seria o apelido dado a algum amor do passado? Seria a lembrança de algum lugar onde o magnata esteve? Seria o desejo de algum objeto que aquele que chegou a ser um dos homens mais ricos do mundo não conseguiu comprar? Seria algum projeto inacabado idealizado por aquela cabeça genial? Para descobrir isso, o jornalista Jerry Thompson inicia sua busca conversando com os principais amigos de Kane.


A primeira pessoa a quem Thompson recorre é a ex-esposa do protagonista, Susan Alexander. Susie, ainda muito abalada pela morte de Kane, se recusa a falar com sobre qualquer assunto referente ao ex-marido. Assim, Thompson vai até uma biblioteca onde está o diário de Walter Parks Thatcher, o homem que buscou Charlie na pensão da mãe. Devido ao pouco tempo que possui para sua leitura, pouca coisa é descoberta, e, em um flash back, vê-se o pequeno Charles sendo levado de sua família para Nova York. Ali já temos vários pontos interessantes referentes a sua vontade de ficar ao lado da mãe e, principalmente, a justificativa de Mary Kane para deixar o filho ser levado: existe, ali, um desejo de proteção contra o pai que, supostamente, agredi o menino. Logo depois, o jornalista vai até o Sr. Bernstein, um homem que começou como secretário de Kane e se tornou um homem rico e importante dentro das empresas do mesmo. As descobertas feitas através de Bernstein estão mais relacionadas ao início da vida de negócios de Kane: fala sobre o melhor amigo, Jedediah Leland, sobre a chegada de Kane ao Inquirer, sobre as ambições do empresário em tonar aquele o jornal mais lido dos Estados Unidos ( o que acaba conseguindo) e sobre o noivado com a primeira esposa, Emily Monroe Norton. Depois, Thompson passa a conversar diretamente com Leland, hoje, um velho homem vivendo em uma casa de repouso, que faz mais alguns relatos cronológicos: a realidade do primeiro casamento, a forma como conheceu a segunda esposa (que antes de ser esposa foi amante), as tentativas de se eleger como governador, a descoberta do caso com Susie (que acabou com sua carreira política, com seu casamento, e com a amizade de Leland) e, por fim, a obsessão em tornar Susie uma cantora, construindo um teatro para ela e promovendo sessões de ópera. Depois, finalmente, Thompson consegue conversar com Susie, que relatará todos os problemas que teve com Kane por ela ser uma péssima cantora. Enquanto ela queria parar de cantar frente às críticas negativas, ele a obrigava a continuar nos palcos. Após uma tentativa de suicídio, ela larga a vida de cantora e começa seu inferno em Xanadú, a tal mansão. Mais alguns anos depois, Susie resolve ir embora, o que deixa Kane irado e sozinho naquela mansão enorme apenas com os empregados ao seu lado. Para finalizar o longa, o jornalista conversa com o mordomo de Kane, a pessoa que esteve ao seu lado até o último suspiro.


Toda essa história é mostra de forma incrível e inovadora por Orson Welles, a mente genial por trás e pela frente das câmeras que realizaram este filme. Em “Cinema: entre a realidade e o artifício”, o jornalista gaúcho Luiz Carlos Marten, apresenta uma história do cinema que parte das origens aos tempos contemporâneos, passando por nomes como Griffith, Eisenstein, Chaplin, John Ford, Hitchcok, Wilder e, claro, Welles. No capítulo referente a este último, o autor traça os passos que influenciaram o diretor até chegar ao resultado histórico de “Cidadão Kane”. “No Tempo das Diligências” (1939), filme de John Ford, as dimensões do cenário variam de acordo com a intensidade das cenas. Em “O Morro dos Ventos Uivantes” (1939), de Billy Wyler, a fotografia cria um plano total, uma profundidade de campo. Em “O Nascimento de uma Nação” (1915), um dos filmes mais importantes do cinema, Griffith introduziu a ideia de flashbacks. Friz Lang, em “M. o Vampiro de Dusseldorf” (1931), assim como em vários filmes alemães, faz do espaço um auxílio para intensificar, diminuir, enfim, dar o tom certo à dramatização. Victor Fleming, por fim, com “... E o Vento Levou” (1939) contribuiu para que Xanadú fosse criada como um lugar grandioso, inexpugnável, imponente, assim como Tara, Twelve Oaks e a mansão de Rhett e Scarlett após o casamento. Mas não foi apenas essa agregação de ideias de outros autores ou a afirmação dessas técnicas que tornaram “Cidadão Kane” inovador. Welles desenvolveu suas próprias ideias. A morte de Kane é anunciada nos principais jornais do mundo, em uma sequência que seria imitada e renovada na década de 80. O casamento do protagonista com sua primeira esposa é resumido em sucessivos cafés da manhã, começando por um desjejum romântico onde o casal senta um ao lado do outro, fazendo carícias sempre que possível, e termina com os dois afastados, um em cada lado da mesa, reinando a indiferença. A câmera, em diversos momentos, acompanha os personagens, explorando espaços e expressões. Na cena em que Kane e Leland tem sua derradeira briga, Welles filma os personagens de baixo para cima, como se um pequeno animal estivesse assistindo a cena.


E “Rosebud”, onde fica nisso tudo? Em alguns momentos do filme, até conseguimos nos esquecer da palavra que gera tanto mistério. Mas Welles e Mankievicz são astutos e inteligentes demais: quando o desfecho se aproxima, o roteiro começa a lembrar da última palavra do magnata e começa a deixar o espectador ainda mais curioso sobre o que significa aquilo. Mas não é apenas esse mistério que faz de o roteiro de “Cidadão Kane” um dos mais impressionantes da história do cinema. Os roteiristas aliam a história mundial real com o subjetivo de Kane. As guerras e a Grande Depressão de 1929 não são contadas em detalhes e passam rápido demais, mas estão ali para nos situar na história e, principalmente para lembrar que Kane é um subproduto do capitalismo, um homem que vive sua vida pautada nesse sistema aterrador. E se Kane é um homem cheio de manias, com poucas expressões, com uma cabeça mais dura que uma pedra, um homem presunçoso, arrogante, orgulhoso é por que tudo isso vem de seu passado, tudo isso é um reflexo do capitalismo. Sim, pois foi o capitalismo que o tirou de perto da mãe quando ainda era uma criança para ser levado para Nova York. Foi o capitalismo que fez, pela primeira vez na vida, Kane não ter direito de escolha. E daí para frente, durante a adolescência e os primeiros anos da fase adulta, Kane tem que estudar e obedecer as ordens de seu guardião. E é essa perda na infância que faz com que Kane sinta a necessidade de manipular as pessoas em sua vida adulta, é isso que faz ele se interessar tanto por um meio de comunicação (o jornal Inquirer), afinal, em sua infância e adolescência, ele foi o manipulado. A revolta de Charles é tanta que, assim que tem a chance de assumir seus negócios, resolve assumir o jornal completamente. E resolve assumir apenas o jornal, o que ia em desacordo com as ideias do guardião, que desejava que ele assumisse toda a fortuna.


E a personalidade de Kane começa a ser formada a partir do momento em que compreendemos que o magnata, desde sempre, odiou a possibilidade de não ter direito de escolha, odiou qualquer possibilidade de perder o controle de sua vida e das pessoas que estão à sua volta. E em momentos de frustração, Kane decide tirar os holofotes de sua derrota e realiza alguma loucura. Quando perde as eleições para governador justamente por ter um caso com Susie, constrói o teatro para ela cantar. Quando Susie fracassa na ópera, constrói Xanadú, a mansão que levou anos para ser construída no topo de um morro, a mansão que abriga uma coleção suficiente para dez museus no mundo, o maior zoológico privado da terra (desde Noé), o monumento mais caro que um homem construiu para si desde as pirâmides egípcias, a materialização de toda a soberba e grandiosidade que Kane acreditava existir em seu próprio interior. Quando a esposa o deixa, por não aguentar mais as loucuras de Kane, ele quebra todo o quarto em que ela dormia e se isola em profunda decadência, ficando rodeado apenas por pessoas interesseiras.


Mas de nada adiantaria tanta competência dos roteiristas se o intérprete de Kane fosse um ator incompetente. Orson Welles não foi indicado ao Oscar de melhor ator à toa. Seu Charles Foster Kane é um homem de muitas faces: nos primeiros anos à frente do Inquirer, é um home extrovertido, que gosta de festas e está sempre rodeado de pessoas as quais ele deseja o bem. Depois de seu primeiro casamento, o homem ganancioso é revelado sem máscaras. A obsessão por tudo o que tem ou não consegue ter começa a ser revelada quando conhece Susie. Dali por diante, talvez pela frustração na tentativa de se eleger governador, Kane (ou Welles) perde toda e qualquer expressão. Ele é um homem só o tempo todo. O verdadeiro Charles Foster Kane é revelado ao espectador. Essa transição do bom samaritano que deseja ajudar os outros para o homem rancoroso que parece não sentir mais nada é o que torna a interpretação de Welles tão magnífica. E o fracasso nas eleições é o culpado por isso: nunca na vida, Kane desejou tanto algo, nunca na vida, quis provar que era capaz de conseguir o que queria como se tornar governador. Talvez, o único momento em que desejou algo com tanto afinco, foi permanecer em casa, ao lado da mãe e não ser levado pelo Sr. Thatcher.


Após o final do filme, quando deveriam começar os créditos, temos uma revelação interessante sobre o elenco do longa: são todos atores desconhecidos. Mas isso não quer dizer que os atores sejam decepcionantes, pelo contrário, a única interpretação ruim é a de Dorothy Comingore, justamente a atriz que mais havia trabalho dentre todos no elenco. Apesar de ter feito algumas participações durante os três anos que antecederam “Cidadão Kane”, a Susie de Comingore é exagerada, dramática demais, caricata demais, expressiva demais, clichê demais, e satisfatória de menos. Em contraponto, Ruth Warrick, indicada ao Emmy 26 anos depois, traz, na primeira interpretação de sua vida, uma Emily apaixonada, sensata, inteligente,  corajosa e, por vezes, frívola. Na cena em que Emily, Kane, Susan e um desafeto de Kane (quem fez Susie revelar o caso à Emily) se confrontam é como se existissem apenas Warrick e Welles em frente à câmera, tamanha a qualidade de seus trabalhos. Joseph Cotten, intérprete de Jedediah Leland, talvez o único personagem que tenha algum teor expressivo, vai do amigo animado e feliz de Kane ao homem decadente, mostrando que àqueles que se relacionavam com o magnata estava reservado um futuro escuro e deprimente. Cotten obteve grande sucesso na televisão entre os anos 60 e 70. Ironicamente, Agner Moorehead, que faz uma pontinha como Mary Kane, a atriz que menos aparece no longa (que também foi seu primeiro trabalho como atriz), foi a atriz que mais fez sucesso após o filme, chegando a ser indicada a 4 Oscars como melhor atriz coadjuvante, vencendo dois Globos de Ouro na mesma categoria e ganhando o público entre as décadas de 60 e 70 como a mãe de Samantha na série de TV “A Feiticeira (1964 – 1972). A personagem, também sempre muito frívola, vai de mãe desnaturada que não se importa em mandar o filho para longe, a mãe protetora que quer salvar o filho da violência do pai.



Em “Cidadão Kane”, ninguém está muito interessado nos sentimentos dos personagens. Não vemos grandes expressões à lá Bette Davis ou Vivien Leigh nas faces das atrizes. Muito menos, vemos homens com olhares sedutores como Henry Fonda ou Clark Gable. Todos os personagens (com exceção de Susie, que está sempre deslocada do contexto) são sempre muito secos, severos, e, por que não, inexpressivos. Mas não se engane ao pensar que isso seja um defeito por parte dos atores. A inexpressividade possui significados em “Cidadão Kane”, está ali por algum motivo. Aliás, como tudo no filme, ela é um símbolo de tudo o que os personagens passam. Xanadú também é um símbolo, de extravagância, de riqueza, de soberba. O Inquirer também é um símbolo, de influência, de persistência, de poder. A candidatura a governador também é um símbolo, de arrogância, de autopromoção, de “alimento para o ego”. E “Rosebud”? Esse sim, é o maior dos símbolos. O único que pode explicar tudo. O único que pode fazer o espectador ter esperanças de compreender este filme. É o símbolo máximo para as mágoas e as depressões do protagonista. Um símbolo de pureza e simplicidade. Um símbolo que explica a obsessão de Kane por tudo. Um símbolo do abandono e da frustração. Um símbolo de esperança. Mas a revelação do significado dessa palavra não é revelada aos personagens. Isso é um presente que é dado apenas ao espectador. Uma forma singela de Welles conversar com o público e manter essa conversa apenas entre ele e quem assiste ao filme. E se você pensa que o fato de Welles fazer essa revelação ser o suficiente para que “Rosebud” seja uma palavra deletada de sua mente com a chegada dos créditos finais do longa, você está muito enganado.


ACESSE NOSSA PÁGINA NO YOUTUBE:
 http://www.youtube.com/user/projeto399filmes

Poderá gostar também de: